Será sacrilégio ou blasfémia falar em "génio" para nos referirmos ao sétimo disco
de quatro miúdos nova-iorquinos? Talvez seja o que apetece fazer, com o coração
nas mãos, tal o arrojo criativo evidenciado pelos Animal Collective no novo "Feels",
quando o magnífico "Sung Tongs" (2004) está ainda fresco na memória de muitos. Se
esse disco foi um dos mais relevantes dos últimos anos, é legítimo acreditar que
"Feels" venha a alcançar um estatuto maior - ou seria justo se assim fosse.
"Feels" é um disco súmula, em múltiplas aspectos. Súmula, porque junta o apelo das
melodias e das canções pop com a complexidade da "weirdness" de uma geração de artistas
desencantados com as fórmulas (Black Dice, Gang Gang Dance, Excepter, etc.). Súmula,
porque concentra algumas das coordenadas dos Animal Collective do passado e projecta-as
num som urgente, totalmente idiossincrático, sem paralelo na música de hoje - há
referências, mas isto é música do presente e do futuro.
É precisamente o lado lúdico e melódico de "Feels" que assegura ao quarteto um lugar
cada vez mais singular no panorama global: já não podem ser conotados com o noise
como o foram com "Heres Comes The Indian" (2003), nem com a "New Weird America"
ou "free folk" como muitos erradamente fizeram aquando da proposta mais acústica
de "Sung Tongs". O novo álbum mantém algumas das características de "Sung Tongs"
(os coros à Beach Boys era "Smile", percussões diabólicas, a beleza infantil que
atravessa as canções), mas é menos desigual - nenhum dos nove temas é dispensável
e ouve-se de um trago. É também menos acústico, mais eléctrico, rápido e acessível.
Abre logo com a magistral "Did you see the words" (ecos de risos de crianças, uma
guitarra em círculos, percussão a acelerar para picos épicos). A canção revela desde
logo a densidade presente em todo o disco: cada melodia esconde um mundo de outros
sons que acrescentam cores à cosmogonia delirante dos Collective. "Grass" partilha
a mesma lógica, mas tem um refrão chanfrado ("Thank you for the pain!/Got shakey
shakey shoulders/Down to the river of the noses in the night"), que termina aos
berros - é um perfeito "single" pop, três minutos de deslumbramento hiperconcentrados.
Em "Turn into something", ouvem-se cordas de brinquedos, vozes a criar ritmos em
cima de ritmos, uma guitarra a rugir e as habituais evocações da infância ("I"m
not bummed some works not fun/Then we crawl in the carpet like bugs") - eis os Animal
Collective na rota da psicadelia e nós, de olhos fechados, a assistir.
"Banshee beat" tem o refrão mais enternecedoramente "freak" dos últimos tempos (é
belíssima a forma como Avey Tare prolonga as vogais de "pool") e é uma notável canção,
sustida numa guitarra solitária e percussão "africanizante", que joga entre a contenção
e as múltiplas subtilezas que se acrescentam ao mantra de mais de oito minutos aparentemente
homogéneo.
Noutros momentos, "Feels" é tranquilo. "Flesh canoes" tem algo de My Bloody Valentine
na forma como a guitarra se liberta da forma e se prolonga no tempo. "Bees" é comparável
a "The softest voice" de "Sung Tongs", mas está longe de aborrecer como acontecia
no tema desse disco. Há piano esparso, vozes suspensas via "delay", acordes de guitarra
que se repetem e uma letra críptica e lacónica ("So violent/the bees/they can slide").
"Loch raven" é um belíssimo sussurro sobre electrónica vagamente reminiscente dos
colegas de editora Múm (curiosamente, Kristín Anna Valtysdóttir, dos islandeses,
toca piano em "Feels") e mais um exemplo de como os Animal Collective constroem
temas incrivelmente cheios com base numa ideia simples.
"Feels" tem um dom cada vez mais raro numa era de consumo veloz de música: agarra-nos,
põe-nos à descoberta das minudências dos seus temas aparentemente simples, alia
os prazeres auditivo e intelectual de ouvir música. E faz-nos sonhar como quando
éramos crianças.
Tracks:
1. Did You See The Words 5:15
2. Grass 2:59
3. Flesh Canoe 3:44
4. The Purple Bottle 6:48
5. Bees 5:38
6. Banshee Beat 8:22
7. Daffy Duck 7:34
8. Loch Raven 4:59
9. Turn Into Something 6:29
No comments:
Post a Comment