.....bit Sounds "Escrítica" POP

Recolha e Arquivo by Zito ..............

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2007-12-11

Carla Bozulich - Evangelista (7/10)

Constellation /

Com 41 anos, Carla Bozulich é dona de um percurso musical pouco comum e já bastante longo. Começou no punk rock, como é normal nos currículos deste tipo de personagens, andou pela música electrónica/industrial com os Ethyl Meatplow e conheceu algum sucesso nos Geraldine Fibbers, praticantes de rock e country alternativos. Já em nome próprio, explorou ainda mais o apego ao country com o recomendável "The Red Headed Stranger" (2003), que revê o clássico com o mesmo nome de Willie Nelson (a lenda do country cantou mesmo em dueto com Bozulich alguns temas, sem quaisquer contrapartidas financeiras). Pelo meio há discos experimentais com gente como Nels Cline (agora nos Wilco) ou Ches Smith (Secret Chiefs 3), uma colaboração com a amiga Lydia Lunch e outros feitos que complicam ainda mais o enquadramento estético de Bozulich.
Em "Evangelista", o primeiro álbum com selo Constellation de um artista de fora de Montreal, Canadá, a norte-americana encontra um ponto intermédio entre a experimentação e a canção. Ao mesmo tempo reinventa-se, contando com a ajuda de membros dos Godspeed You! Black Emperor, A Silver Mt Zion (ASMZ) e Black Ox Orchestra para conjurar estes nove ritos fúnebres.
O tema inaugural, "Evangelista I", é talvez aquele a que a escola Constellation empresta maior influência: Bozulich expurga males sobre um órgão omnipresente (elemento que confere a quase todo o álbum um lado "drone" hipnótico) e cordas dolentes que só explodem mais de sete minutos depois. É uma atmosfera rarefeita de luz que não ficaria mal aos ASMZ se estes tivessem Diamanda Galás nas suas fileiras. Semelhante expressividade vocal só será encontrada na despida "Baby, that"s the creeps", que revela a qualidade de Bozulich enquanto performer - a voz em choro revoltoso (a recordar Patti Smith), como que a chamar a si o sofrimento do mundo.
"Evangelista II", que fecha o álbum, é o reverso do primeiro tema: a instrumentação é reduzida ao mínimo (Efrim, dos ASMZ, na guitarra e Bozulich na voz e nos ruídos que vão irrompendo pela canção) e a vocalista a ciciar num lamento sepulcral. "Pissing" é repescado aos Low e mantém-se fiel à parcimónia do original, num crescendo compassado de tensão rumo a um buraco negro (há violinos e vozes em rodopio a acompanhar a bateria imutável).
"Prince of the world" e "Steal away" são as canções menos negras do álbum e denotam uma qualidade religiosa no som e nas letras. A primeira aponta um coro de vozes para o céu sob a melodia ditada por um dedilhado triste. Já "Steal away" (versão de um espiritual afro-americano) abre com contrabaixo a sugerir uma raga, mas a impressão inicial é interrompida por um órgão clerical e Bozulich em louvores a Deus ("My Lord, He calls me / He calls me by the thunder").
Os momentos mais dissonantes acabam por ser os menos interessantes do álbum. "How to survive being hit by lightning" assemelha-se a uma transmissão radiofónica roufenha de uma cantora dos anos 50 e "Nels" box" é uma impressionista manta de retalhos dispensável. Não envergonham, mas retiram impacto ao conjunto.
À semelhança de boa parte do restante catálogo da Constellation, "Evangelista" convida ao recolhimento e aconselha-se o seu consumo em doses regradas. É uma aposta ganha numa editora que a custo vai explorando outras estéticas para além do pós-rock mas cujo núcleo duro de artistas serviu, curiosamente, para Bozulich se redefinir musicalmente.

Pedro Rios in Público | 23-06-2006|

Tracks:

1. Evangelista I
2. Steal Away
3. How To Survive Being Hit By LIghtning
4. Inside Sleeps
5. Baby, That’s The Creeps
6. Pissing
7. Prince Of The World
8. Nels’ Box
9. Evangelista II

Múm - Finally We Are No One (8/10)

Fat Cat / Ananana

Eis o típico objecto capaz de gerar um fenómeno de culto e de, simultaneamente, provocar ataques de urticária em muita gente. É quase sempre assim com discos como "Finally We Are No One". Discos feitos no fio da navalha das emoções mais delicadas, alheios ao mundo circundante. Alheios a quase tudo na verdade. Discos que não se preocupam tanto em reflectir a realidade, mas sim em construir mundos paralelos.
Existem muitos outros grupos assim no contexto da música actual. Não partilham afinidades estéticas, mas sim estados de espírito. Pode ser a pop-folk ingénua dos Kings Of Convenience, o neo-rock introspectivo dos Sigur Rós ou a electropop intíma e microscópica de Björk e dos alemães Laub dos últimos álbuns. A uni-los essa ideia de que o sonho pode comandar a música.
Talvez por isso, o que os islandeses Múm gostam mesmo é de andar de bicicleta. Por isso, vivem entre Reiquejavique e Berlim. Cidades planas, lá onde se pode andar de bicicleta em passeios largos, ao mesmo tempo que se saboreia um gelado e se anda se 'headphones' nos ouvidos. O ano passado, em entrevista à revista inglesa "Sleazenation" confessavam: "a música tem uma relação especial com o tempo e, principalmente, com o espaço. Pensamos que é agradável ouvir este disco enquanto se anda de bicicleta. Pode ser num espaço rural, mas qualquer cidade espaçosa serve".
O disco em questão era o álbum de estreia, "Yesterday Was Dramatic, Today Is Ok", mas a ideia pode servir perfeitamente para o novo álbum, até porque o assunto bicicletas continua a dominar a vida dos quatro islandeses como se constata numa entrevista recente à revista "Jockey Slut". São putos os Múm - têm todos cerca de 20 anos - e só lhes fica bem.
São quatro. Os rapazes Gunnar Örn Tynes e Örvar Smárason e as irmãs gémeas de formação clássica Kristín Anna e Gyoa Valtysdóttir. Deles diz-se que são tristes, da música que é dramática. Eles devem rir-se de tudo, porque "Finally We Are No One" é a respiração natural de dois rapazes e duas raparigas islandeses em dia de luminosa melancolia.
É um disco feito de uma nostalgia faz-de-conta, dominado por complexas programações rítmicas, melodias irresistivelmente pop, texturas etéreas, lentos movimentos electrónicos, incompreensíveis e ocasionais sussuros vocais e desenvolvimentos acústicos proporcionados pelo acordeão, violoncelo ou baixo. "Finally We Are No One" é uma caixa-de-música ternurenta e afectuosa. É como uma fábula, alguns vão acreditar e entrar nela, outros vão ficar à porta.

Vítor Belanciano in Público | 24-05-2002|

Tracks:

1. Sleep/swim
2. Green Grass of Tunnel
3. We Have a Map of the Piano
4. Don’t Be Afraid, You Have Just Got Your Eyes Closed
5. Behind Two Hills..... a Swimmingpool
6. K/half Noise
7. Now There’s That Fear Again
8. Faraway Swimmingpool
9. I Can’t Feel My Hand Any More, It’s Allright, Sleep Still
10. Finally We Are No One
11. The Land Between Solar Systems

Stephan Oliva - Ghosts of Bernard Herrmann (4/5)

Illusions /

A obra de Bernard Herrmann, compositor genial que marcou o trabalho de cineastas como Alfred Hitchcock, Brian de Palma ou Martin Scorsese, continua a inspirar gerações de novos músicos e compositores. Marcada por uma intemporalidade mágica, o conjunto das suas composições possui uma profundidade e simultânea leveza que as transporta ao longo das décadas, deixando marcas indeléveis em todos os que com elas contactam. A mais recente "vítima" desse contacto foi Stephan Oliva, talentoso pianista francês conhecido sobretudo pela sua gravação em trio, "Jade Visions", dedicada ao pianista Bill Evans, e pelas colaborações nos ensembles de Claude Tchamitichian. Em "Ghosts of Bernard Herrmann", Oliva realiza uma emocionante viagem pela obra do compositor, interpretando temas retirados de filmes como "Obsession" de Brian de Palma, "Vertigo" e "Psycho" de Alfred Hitchcock, "Fahrenheit 451"de François Truffaut, "Citizen Kane" de Orson Welles ou "Taxi Driver" de Martin Scorsese. Profundo, brilhante e inspirador.

Rodrigo Amado in Público | 09-11-2007|

Tracks:

2007-12-05

Animal Collective - Feels (10/10)

Fat Cat / Flur

Será sacrilégio ou blasfémia falar em "génio" para nos referirmos ao sétimo disco de quatro miúdos nova-iorquinos? Talvez seja o que apetece fazer, com o coração nas mãos, tal o arrojo criativo evidenciado pelos Animal Collective no novo "Feels", quando o magnífico "Sung Tongs" (2004) está ainda fresco na memória de muitos. Se esse disco foi um dos mais relevantes dos últimos anos, é legítimo acreditar que "Feels" venha a alcançar um estatuto maior - ou seria justo se assim fosse.
"Feels" é um disco súmula, em múltiplas aspectos. Súmula, porque junta o apelo das melodias e das canções pop com a complexidade da "weirdness" de uma geração de artistas desencantados com as fórmulas (Black Dice, Gang Gang Dance, Excepter, etc.). Súmula, porque concentra algumas das coordenadas dos Animal Collective do passado e projecta-as num som urgente, totalmente idiossincrático, sem paralelo na música de hoje - há referências, mas isto é música do presente e do futuro.
É precisamente o lado lúdico e melódico de "Feels" que assegura ao quarteto um lugar cada vez mais singular no panorama global: já não podem ser conotados com o noise como o foram com "Heres Comes The Indian" (2003), nem com a "New Weird America" ou "free folk" como muitos erradamente fizeram aquando da proposta mais acústica de "Sung Tongs". O novo álbum mantém algumas das características de "Sung Tongs" (os coros à Beach Boys era "Smile", percussões diabólicas, a beleza infantil que atravessa as canções), mas é menos desigual - nenhum dos nove temas é dispensável e ouve-se de um trago. É também menos acústico, mais eléctrico, rápido e acessível.
Abre logo com a magistral "Did you see the words" (ecos de risos de crianças, uma guitarra em círculos, percussão a acelerar para picos épicos). A canção revela desde logo a densidade presente em todo o disco: cada melodia esconde um mundo de outros sons que acrescentam cores à cosmogonia delirante dos Collective. "Grass" partilha a mesma lógica, mas tem um refrão chanfrado ("Thank you for the pain!/Got shakey shakey shoulders/Down to the river of the noses in the night"), que termina aos berros - é um perfeito "single" pop, três minutos de deslumbramento hiperconcentrados. Em "Turn into something", ouvem-se cordas de brinquedos, vozes a criar ritmos em cima de ritmos, uma guitarra a rugir e as habituais evocações da infância ("I"m not bummed some works not fun/Then we crawl in the carpet like bugs") - eis os Animal Collective na rota da psicadelia e nós, de olhos fechados, a assistir.
"Banshee beat" tem o refrão mais enternecedoramente "freak" dos últimos tempos (é belíssima a forma como Avey Tare prolonga as vogais de "pool") e é uma notável canção, sustida numa guitarra solitária e percussão "africanizante", que joga entre a contenção e as múltiplas subtilezas que se acrescentam ao mantra de mais de oito minutos aparentemente homogéneo.
Noutros momentos, "Feels" é tranquilo. "Flesh canoes" tem algo de My Bloody Valentine na forma como a guitarra se liberta da forma e se prolonga no tempo. "Bees" é comparável a "The softest voice" de "Sung Tongs", mas está longe de aborrecer como acontecia no tema desse disco. Há piano esparso, vozes suspensas via "delay", acordes de guitarra que se repetem e uma letra críptica e lacónica ("So violent/the bees/they can slide"). "Loch raven" é um belíssimo sussurro sobre electrónica vagamente reminiscente dos colegas de editora Múm (curiosamente, Kristín Anna Valtysdóttir, dos islandeses, toca piano em "Feels") e mais um exemplo de como os Animal Collective constroem temas incrivelmente cheios com base numa ideia simples.
"Feels" tem um dom cada vez mais raro numa era de consumo veloz de música: agarra-nos, põe-nos à descoberta das minudências dos seus temas aparentemente simples, alia os prazeres auditivo e intelectual de ouvir música. E faz-nos sonhar como quando éramos crianças.

Pedro Rios in Público | 14-10-2005|

Tracks:

1. Did You See The Words 5:15
2. Grass 2:59
3. Flesh Canoe 3:44
4. The Purple Bottle 6:48
5. Bees 5:38
6. Banshee Beat 8:22
7. Daffy Duck 7:34
8. Loch Raven 4:59
9. Turn Into Something 6:29

2007-11-28

Nine Horses - Money For All (4/5)

Samadhisound / Ananana

A tentação de lhe colar o rótulo de "restos de colecção" é muita, mas "Money For All", o mini-álbum dos Nine Horses, que se segue à estreia com "Snow Borne Sorrow", sobrevive à tentativa de ser rotulado dessa maneira. Em evidência, para além de novas canções, estão várias releituras concebidas pelo alemão Burnt Friedman (operacional de serviço em projectos como Nonplace Urban Field, Drome ou Flanger). No centro das atenções está, evidentemente, a voz aveludada de David Sylvian e aquele tipo de classicismo elegante que continuamos a associar a álbuns marcantes da sua autoria, como "Brilliant Trees" (1984) ou "Secrets Of The Beehive" (1987). Mas ela não sobreviria sem a encenação de quadros nocturnos ensaiados pelos dois cúmplices que o acompanham na aventura. São os quadros voluptuosos, assentes em ambientes serenos e transitórios movimentos jazzísticos, que acabam por garantir a estabilidade a todo o edifício. Há espaço, muito espaço, lentos encadeamentos rítmicos e manchas acústicas diluídas por entre electrónicas, numa conseguida tentativa de atribuir novas propriedades à canção de recorte clássico
Vítor Belanciano in Público | 19-01-2007|

Tracks:

1. Money For All
2. Get The Hell Out
3. Banality Of Evil
4. Wonderful World
5. Birds Sing For Their Lives
6. Serotonin
7. Money For All
8. Get The Hell Out

Murcof - Cosmos (4/5)

Leaf / Flur

Nos cinco anos entre o seu álbum de estreia "Martes" e o seu mais recente "Cosmos", o mexicano Fernando Corona (a viver em Barcelona), mais conhecido por Murcof, transformou-se num dos nomes mais respeitados das electrónicas abstractas. Pelo meio houve "Remembranza", de 2005, obra maior dedicada à mãe que morreu. Nesse disco de peças solenes, as electrónicas minimalistas harmonizavam-se com música clássica contemporânea (Ligeti, Gorecki), em temas instrumentais que evocavam vestígios, indícios, tonalidades e texturas, adoptando títulos como "Recuerdos", "Rios", "Caminos" ou "Reflexos". Dois anos depois, mergulha no espaço. Embora ainda existam aqui indícios dos ritmos microscópicos e ruídos digitais que avultavam nas suas obras anteriores, "Cosmos" é outra coisa. Trabalhando a partir de gravações de instrumentos clássicos e não da reprodução de amostras de sons dos mesmos, concebe formas electrónicas invulgares e amplas, com melodias e ruídos a derivarem no mesmo espaço multi-dimensional. É uma música panorâmica, com profundidade de campo, onde o silêncio é tão eloquente como o som, num registo de abstracções, matéria orgânica que se move pelo universo lentamente, rumores longínquos, corpos digitais vogando em procura de auxílio. Desta vez, deu-lhes títulos como "Cuerpo", "Celeste", "Cielo" ou "Cosmos"
Vítor Belanciano in Público | 28-09-2007|

Tracks:

1. Cuerpo Celeste 7:23
2. Cielo 8:17
3. Cosmos I 8:58
4. Cometa 9:39
5. Cosmos II 9:06
6. Oort 12:49

2007-11-27

Mexican Institude of Sound - Pinata (3/5)

Cooking Vinyl /

MIS ou Mexican Institude of Sound é o projecto de Camilo Lara, DJ, produtor, remixer e antigo executivo da EMI mexicana. "Pinata", o segundo MIS oferece-se como um ensaio de corte e colagem, dançante e brincalhão, um exercício da pós-moderna disciplina da samplagem sobre um desfile de ritmos sul-americanos. A selecção inclui folclore e rap mexicano, cumbia colombiana e funk carioca, à mistura com o usual sortido de acrobacias scratch, samplers de interruptores, sinos, discos riscados e vozes de desenhos animados, sobre batidas house a afins. Para além de meia dúzia de compinchas mexicanos, Lara conta com participações do japonês Fantastic Plastic Machine, dos argentinos Babásonicos e de Chris Frantz, dos Talking Heads. Na maior parte, porém, soa como uma versão latino-americana de Beck ou dos Avalanches. O que, por sua vez, é muito parecido com o que Uwe Schmidt faz desde que há meia dúzia de anos vestiu a pele de Señor Coconut para lançar a versão chilena do "baile alemão". Lara emprega as mesmas premissas, mas num registo menos cerebral e vanguardista, ou mais propício aos refrões "nonsense" para trautear ao volante em hora de ponta, ou para dançar em "comboios" matinais de discotecas xunga-chique.
Luís Maio in Público | 17-08-2007|

Tracks:

01. Killer Kumbia
02. Escribeme Pronto
03. El Microfono
04. Para No Vivir Desesperado
05. La Kebradita
06. A Girl Like You
07. A Todos Ellos
08. Hip Hop No Pares
09. Katia, Tania, Paulina Y La Kim
10. Belludita
11. Mi Negra a Bailal
12. Lala Meda
13. La Kebradita

Sigur Rós - Hvarf-Heim (3/5)

EMI /

Passaram dois anos sobre "Takk...", disco que acalmou os corações que se tinham deixado encantar pelo maravilhoso "Ágætis Byrjun" (2000), assustados pelo negrume do hermético "()". Os Sigur Rós ainda não têm sucessor de pleno direito para "Takk..." mas voltam a dar sinais de vida com duas edições em simultâneo: este duplo CD de temas inéditos e versões de material antigo e o DVD "Heima", um documentário sobre a digressão que a banda fez na sua terra natal, a Islândia, em 2006.
No primeiro disco, "Hvarf" (significa "desaparecido"), há três canções inéditas e versões de "Von" e "Hafsól", dois temas contidos em "Von" (1997), o disco de estreia do grupo, mais experimental e negro do que os álbuns que se lhe seguiriam - a primeira, que em "Von" era um exercício quase impressionista e tímido, transforma-se em algo épico, enquanto "Hafsól", clássico dos concertos do grupo, põe o baixo, percutido com uma baqueta, em primeiro plano.
Entre as inéditas, o destaque vai inteirinho para "Í gær", sôfrega de tanto rugir eléctrico. "Salka" também merece repetidas audições: frase simples na guitarra eléctrica a conduzir o tema, bateria discreta, a voz de Jónsi Birgisson com a doçura habitual, a mesma desenvoltura quase pop e luminosa que "Takk..." trouxe para a música do grupo. "Hljómalind" é o mais previsível dos três inéditos, com a tradicional dinâmica calmaria-tempestade que caracteriza os Sigur Rós.
O segundo disco ("Heim", casa) traz seis canções dos quatro discos do grupo interpretadas num concerto acústico intimista. Reduzida aos seus elementos mais básicos e sem a qualidade quase panorâmica que atinge em modo "eléctrico", a música dos Sigur Rós perde alguma beleza e densidade.
Mesmo nos temas novos, "Hvarf-Heim" não traz surpresas de maior à sonoridade dos Sigur Rós, mas nos islandeses a previsibilidade é também sinónimo de território frutuoso

Pedro Rio in Público | 02-11-2007|

Tracks:

Hvarf

1. Salka 6:11
2. Hljómalind 4:58
3. Í Gaer 6:28
4. Von 9:17
5. Hafsól 9:50

Heim

1. Samskeyti 5:23
2. Starálfur 5:30
3. Vaka 5:21
4. Ágætis Byrjun 6:38
5. Heysátan 4:45
6. Von 8:14

2007-11-26

Akron/Family - Love Is Simple

Young God Records /

Se fôssemos ligar à semântica, era suposto que o nome folk desse para tudo, pelo menos no sentido de folclore, o "lore" do povo - quando muito poderíamos ter dificuldades na interpretação da palavra "povo". Mas, por alguma razão, a folk atribui-se o sentido de música com guitarras acústicas e moços a protestar ou a ganir histórias de traições.
Por isso fez sentido quando há anos surgiu a denominação "free folk" para uma série de projectos que, mantendo a ruralidade e a primitividade, retiravam as mencionadas âncoras conservadoras à sua música. Dos Six Organs of Admittance aos Sunburned Hand of the Man, muita coisa coube na denominação "free folk". Por exemplo, os Akron Family foram postos no saco, muito embora sejam inclassificáveis. E se não acreditam, têm remédio: (...)
Editados pela Young God Records, de Michael Gira (o homem que descobriu Devendra Banhart), os Akron Family encontram o seu lugar na raiz primitiva do rock, ou, pelo menos, no nódulo de que o tronco parte, com todos os géneros ainda por se ramificarem e definir: a folk, o Gospel, a força telúrica da country e algo de primitivo, quase punk na explosão das guitarras, tudo num só mundo, tudo num só veio.
Estão, portanto, mais próximos de bandas como Black Mountain ou Black Angels, outros cultores de um rock rural, visceral, negro e melífluo, que das influências teutónicas e vanguardistas da dita "free folk". Basicamente: nas mãos dos Akron/Family a The Band pode tornar-se uma capela negra ou descobrir o inferno do "feedback". Não é por acaso que têm uma (extraordinária) canção chamada "Dylan, pt 2".
Mas há mais que isto: nas canções dos Akron/Family podemos encontrar gemidos próximos de alguns exercícios de Robert Wyatt, harmonias celestiais, serradura eléctrica a lembrar os Credence Clearwater Revival, algum psicadelismo, alguma religiosidade demente. Nunca se atinge a perfeita forma da canção, antes parecem que a estão a tentar evitar ou que por mais que tentem nunca a irão alcançar.
Se quiserem podem dizer que há um lado improvisacional neles, falar em pós-rock, citar Captain Beefheart, enumerar a ordem maldita do rock, recordar os 13th Floor Elevators à conta do LSD pipetado nas seis cordas de um solo mais sanguinário. Estão à vontade: nos três discos que a Akron/Family editou em dois anos ("Akron/Family", de 2005, "Akron/Family & Angels of Light", um "split" com os Angels of Light, em 2005, e "Meek Warrior" de 2006) há lugar para tudo e na estante das referências há lugar ainda para mencionarem a folk de Canterbury ou a colectânea de música americana de Harry Smith. Vale tudo, desde que seja rural, violento, polifónico, sofisticado, épico, minimal, doce, lento, ruidoso e silencioso.
Vale tudo desde que algures por ali vagueie esse fantasma doentio e fascinante chamado rock"n"roll

João Bonifácio in Público | 24-04-2007|

Tracks:

01. Love, Love, Love (Everyone) 1:46
02. Ed Is A Portal 7:31
03. Don't Be Afraid, You're Already Dead 4:36
04. I've Got Some Friends 3:09
05. Lake Song/New Ceremonial Music For Moms 7:24
06. There's So Many Colors 8:11
07. Crickets 3:59
08. Phenomena 3:46
09. Pony's O.G. 5:20
10. Of All The Things 7:41
11. Love, Love, Love (Reprise) 3:07

Patrick Watson - Close To Paradise (4/5)

V2 Music

Saiu há um ano no Canadá, mas para os incautos europeus um dos álbuns mais surpreendentes das últimas semanas chama-se "Close To Paradise" e vem assinado por um tal Patrick Watson, cantor e pianista, ex-estudante de jazz e ex-membro de uma banda de ska (?), que alguns conhecerão pela participação no último álbum da Cinematic Orchestra. Grava em nome próprio depois de ter sido convidado para compor música para acompanhar imagens subaquáticas da fotógrafa Brigitte Henry.
Confusos? Não, quando souberem que vem da Montreal dos Arcade Fire, Final Fantasy, Islands, Wolf Parade e outros agentes capazes de nos deixarem à beira de um saudável ataque de nervos. Gente que se entrega à causa da música com a crença que da desordem surge a clareza.
Em 2001 compôs uma banda sonora experimental, "Waterproof9" e em 2003 o álbum "Just Another Ordinary Day", qualquer deles despercebidos na Europa. Não é isso que está a acontecer com "Close To Paradise" e é justificado. Obra excêntrica e, aparentemente, plural - da escrita de canções folk à música improvisada, da electrónica discreta às harmonias dos Beatles, do lirismo do piano à Eric Satie ao ruído rock - mas que na verdade origina uma obra sólida a partir dos aromas mais contraditórios.
Só a voz de Watson é um mundo. Primeiro, parece Jeff Buckley, mas sem maneirismos. Depois, Thom Yorke dos Radiohead, mas permeável. Lá mais para o fim, Antony. E até Sufjan Stevens. Cada canção são paisagens inteiras que se desdobram à nossa frente, elementos naturais das mais diversas proveniências (folk, rock, jazz, electrónicas) que se vão alojando, sem esforço, no mesmo corpo sonoro, por entre vozes vagabundas encantatórias.
A totalidade instrumental é insólita, com pormenores que se desenvolvem infinitamente. Sugere um grupo de estouvados a tentar desenhar canções, mas no meio do desarranjo há sempre uma linha ténue que fica do lado da razão. O suficiente para colocar um álbum misterioso, ligeiramente psicadélico, o quanto baste místico, próximo do paraíso. Nada elementar, caro Watson.

Vítor Belanciano in Público | 26-10-2007|

Tracks:

01. Close To Paradise
02. Daydreamer 03. Slip Into Your Skin
04. Giver
05. Weight Of the World
06. The Storm
07. Mr. Tom
08. Luscious Life
09. Drifters
10. Man Under the Sea
11. The Great Escape
12. Sleeping Beauty
13. Bright Shiny Lights

2007-11-25

Jens Lekman - Night Falls Over Kortedala

Jens Lekman - Night Falls Over Kortedala (4/5)

Secretly Canadian /

Compõe canções sobre raparigas que não conhece, mas desejava conhecer. No fim de contas acaba por conhecê-las porque se sente mal a compor canções sobre raparigas que não conhece. Confusos? Pudera.
As canções do sueco Jens Lekman não são autobiográficas, são proféticas. Por outras palavras, compor canções é uma forma de se forçar a fazer com que aquilo que escreve seja, por fim, verdade. Ou seja, antecipa experiências, compõe canções e depois vive as experiências. Foi o próprio quem o revelou, na entrevista que publicámos a semana passada. Não sabemos quantas raparigas conheceu assim, mas a acreditar na teoria muitas. Pelo menos, no novo álbum há imensas. Há Nina, a quem Lekman envia um "postcard", ou "Shirin", a cabeleireira iraniana, com direito a versos como "when Shirin cuts my hair, it"s like a love affair / I show her my passport what i look like / But she just smiles and let me know it"s gonna be all right". E existem muitas outras que povoam histórias comoventes ou inverosímeis, narrativas de amores frustrados ou em vias de o serem. Já era assim nos seus dois anteriores registos ("When I Said I Wanted To Be Your Dog" e "Oh You"re So Silent Jens") e volta a ser assim no novo álbum, que Jens Lekman teima em chamar "colecção de canções", porque diz que não tem paciência para arquitectar uma obra com coerência. Não liguem. Seja lá o que for, "Night Falls Over Kortedala" contém algumas das canções mais patéticas e emocionantes, sinceras e manhosas dos últimos tempos. Música pop exuberante mas distorcida, capaz de expor influências à flor da pele (Scott Walker, Jonathan Ritchman ou Magnetic Fields) sem ficar refém delas, num equilíbrio instável entre melodias enroscadas, orquestrações fulgurantes e uma voz de barítono sempre à procura da cumplicidade alheia. Magnífico.

Vítor Belanciano in Público | 02-11-2007|

Tracks:

01. And I Remember Every Kiss 2:59
02. Sipping On the Sweet Water 4:11
03. The Opposite of Hallelujah 4:21
04. A Postcard to Nina 5:00
05. Into Eternity 3:45
06. I'm Leaving You Because I Don't Love You 3:48
07. If I Could Cry (it would feel like this) 3:23
08. Your Arms Around Me 5:02
09. Shirin 3:56
10. It Was a Strange Time in My Life 5:08
11. Kanske Ar Jag Kar i Dig 4:43
12. Friday Night At The Drive-In Bingo 4:16

Brisa Roché - Takes

Brisa Roché - Takes (4/5)

Discograph /

Parece ser a estação dos espíritos boémios viandantes. Do jovem americano Zach Condon (Beirut) que, em viagem pela Europa, se apaixonou por Paris e pela música dos Balcãs. Do sueco Jens Lekman, que reflecte no seu mais recente álbum sobre os subúrbios de Gotemburgo, e está de partida para a Austrália. Do americano, com costela venezuelana Devendra Banhart, que canta no último álbum como se fosse Caetano Veloso. Ou do americano Patrick Watson a viver em Montreal, no Canadá, agora, enfim, reconhecido na Europa. Parecem estar todos em trânsito. A sua música parece reflectir lugares e paisagens de forma evocadora. Como se através da música pudessem ser transportados aos lugares onde estiveram ou desejavam estar. Música situada entre espaços e pessoas. Como a californiana Brisa Roché, a habitar em Paris, pop solarenga, folk psicadélica, povoada pelo espírito da canção ligeira francesa, mescla de Beach Boys, Johnny Cash e Françoise Hardy, envolvidos pela encantadora preguiça de existir. Ou para a situar no panorama actual, algures entre Devendra Banhart, sem o desvario, e outro espírito em trânsito, a canadiana Feist, que depois de ter estado anos em Berlim, vive em Paris. Depois de um primeiro disco na editora Metro - subsidiária da Blue Note - que actualmente, diz ela, já nada tem a ver consigo, regressa dois anos depois com um óptimo álbum. Sem propósitos subversivos, mas feito com a espontaneidade e simplicidade de alguém que se reencontrou musicalmente, partindo à procura de elementos onde se sentisse à vontade, sabendo que a exposição sem simulacros é aquilo que acabará por distinguir a sua música.

Vítor Belanciano in Público | 02-11-2007|

Tracks:

01. breath in speak out
02. heavy dreaming
03. the drum
04. trampoline
05. hand on steel
06. whistle
07. the building
08. without a plan
09. high
10. egyptian
11. halfway on
12. the choice
13. call me
14. pitch black spotlight
15. the mummy

Sparklehorse - Dreamt for light ...

Sparklehorse - Dreamt for light years in the belly of a mountain (8/10)

Astralwerks / EMI

Danger Mouse obrigou-o a recuperar canções antigas que não tinham entrado em disco, a resgatar os bocadinhos de som que havia gravado, mesmo que não tivessem estrutura. Segundo Linkous, Danger Mouse retirava uma guitarra de um canção e punha noutra, noutro tom, depois de a filtrar, triturar, embelezar.
Disco nublado, constantemente a sair do ruído para pairar nos cimos de uma beleza uterina, é feito de nuvens de distorção rasgadas por flautas e vozes ameninadas. "Don"t take my sunshine away" é a versão negra do indie-pop-regressivo, órgãos vintage no baloiço de uma harmonia de guitarras, violoncelos sérios mirando a voz de birra de Linkous, e o refrão, com coros planantes, a surgirem no meio da ferrugem. Está dois palmos acima do melhor dos Grandaddy ou dos Yo La Tengo, imersa em líquido amniótico antes de descambar num duelo de guitarras e vozes distorcidas até ao osso. No fim uma voz feminina repete "sunshine".
A voz surge muitas vezes alterada - em "Gettint it wrong" torna-se um gemer infantil, não no sentido transcendental de "Rock bottom", de Robert Wyatt, mas de pura dor, como uma criança que tivesse rasgado o joelho. Não há uma única canção que não seja melodicamente irrepreensível.
Há melódicas, órgãos antigos, guitarras acústicas distorcidas, cordas maradas, xilofones, flautas infantis. A progressão de guitarra de "Shade and honey" remete-nos para o universo da adolescência, ressaca após vomitar no milheiral à porta da discoteca, domingo nublado, almoço de restos do dia anterior, pequena discussão, a namorada que não atende o telefone, já se perdia a virgindade, o FC Porto perdeu em casa. O refrão tem coros a entoar "Made of honey". Aquilo é uma flauta. Aquilo é um xilofone. Aquilo é um violoncelo. Isto é beleza. Beleza impressionante, diríamos, enquanto nos ocorre que há mais 49 mil 999 pessoas a concordar connosco (coisa que não se sabíamos na adolescência).
"Return to me" parece querer retratar aquilo que imaginamos ser penúria. Mas isso é subjectivo e a humanidade não gosta disso. Objectivamente tem uma guitarra acústica e voz. Objectivamente "Some sweet day" será a canção mais propensa a encantar os amantes de "It"s a wonderfull lief", toda órgãos, baixos pulsantes debaixo de uma produção densa, com a voz a procurar um lugar de alegria no refrão. Objectivamente, Beck daria seis dedos do pé esquerdo para escrever uma canção assim.
Nós andamos por cá, fazemos asneiras diariamente, alguém apara a relva no jardim para que a geometria esconda o rebuliço nos intestinos. "Dreamt for light years..." é só rebuliço nos intestinos, geometricamente disposto para encantar. Linkous nem está salvo nem se tornará "um ser humano melhor".
Os canteiros estão aparados, dentro de casa ouvimos baixinho discos dos Sparklehorse. Mark Linkous canta "It"s not so hard". Os canteiros estão aparados.

João Bonifácio in Público | 13-10-2006|

Tracks:

01. Don't Take My Sunshine Away
02. Getting It Wrong
03. Shade And Honey
04. See The Light
05. Return To Me
06. Some Sweet Day
07. Ghost In The Sky
08. Mountains
09. Morning Hollow
10. It's Not So Hard
11. Knives Of Summertime
12. Dreamt For Light Years In The Belly Of A Mountain

Felt - Stains on a Decade

Felt - Stains on a Decade

Cherry Red /

(...)Mas, muito sinceramente, Dylan e Van Zandt assombram o disco por todo o lado - especialmente o Bob de "Blood on the Tracks" parece ser o espírito-guia de canções como a magistral "She lives by the castel" (neste momento a melhor etcetcetc, o leitor já conhece a cantiga). Dedinho de Mayo? "Não, ele foi o pior produtor do mundo", ri-se. "Coitado, era uma óptima pessoa, mas completamente louco. Na altura em que produzimos o disco ele ficou a morar em minha casa. Certo dia acordou a meio da noite e começou a passar-se. Fez as malas e voltou para Londres. Nunca mais o vi". Nada de grave, até porque Lawrence tirou uma importante lição de vida que, esperemos, o leitor siga: "Nunca confie numa velha estrela psicadélica". De golpe de anca em golpe de anca, "Pictorail Jackson Review" é mais uma obra-prima de minimalismo e estranha beleza. A primeira parte do álbum volta às canções à "Ignite..." (pop indie perfeitas), a segunda atira-se a um cocktail jazz meio negro meio martini, ou seja, martini no escuro. Estava tudo feito? Claro que não. Estavam planeados dez discos, seriam dez discos.Em 88 ainda sairia "Train Above The City", todo da responsabilidade de Duffy, teclas e jazz e mais martinis. Enigmático, mas a espaços delicioso. Também não foi reeditado. E depois, em 89, o fim: "Me and The Monkey On The Moon", última obra-prima, levando ainda mais longe (e aprofundando o eclectismo) de "Ignite..." e da primeira metade de "Pictorial...". Vá-se lá saber porquê, também não foi reeditado. Cumprindo o plano original, os Felt lançaram dez singles em dez anos - e alguns desses singles não faziam parte dos álbuns de estúdio (uma mania estranha que se perdeu nos anos 80). É exactamente essa colecção de singles que "Stains On a Decade" compila. Ouvida assim, dá uma ideia diferente dos Felt, mais eclécticos e experimentadores, capazes de fazer singles orelhudos e simultaneamente estranhos. Há lá uma versão de Brian Wilson e, em "Space blues", ouve-se "I don't wanna give a damn". Também foi posto à venda um DVD, "A Declaration", que musicalmente é irrepreensível - mas meio manhoso em termos de imagem.Fim de conversa, pergunta-se ao homem que um dia cantou "I will be the first man in history to die of boredom" (e que depois dos Felt fundou os deliciosos Denim e os Go-Kart Mozart) o que lhe falta. Resposta: "Ser maior que Dylan". Parece perfeito.

João Bonifácio in Público | 20-02-2004|

Tracks:

01.Something Sends Me To Sleep
02.Trails Of Color Dissolve
03.Penelope Tree
04.Sunlight Bathed The Golden Glow
05.Fortune
06.Dismantled King Is Off The Throne
07.Primitive Painters
08.Ballad Of The Band
09.I Didn't Mean To Hurt You
10.I Will Die With My Head In Flames
11.Bandmans On The Rise Again
12.Final Resting Of The Ark, The
13.There's No Such Thing As Victory
14.Be Still
15.Space Blues

Burial - Untrue

Burial - Untrue (5/5)

Hyperdub / Flur

Em "Untrue", o segundo álbum de Burial, o que não é dito é mais importante do que aquilo que é dito. O concreto é menos relevante que as suas sombras. O vazio não é vácuo: é um espaço em aberto, pronto para ser ocupado por memórias, imagens, projecções do ouvinte. Olha-se à volta e não se vislumbra música mais evocativa.
Na segunda metade do ano passado, com o álbum homónimo de estreia, já havia sido assim. De repente, tomávamos contacto com a música de um esteta londrino que preferia manter o anonimato (numa das poucas entrevistas, há semanas, ao diário "The Guardian", revelava que nem os amigos sabem que cria música), sendo inserido na corrente dubstep que, entretanto, chegava ao grande público depois de anos na obscuridade.
Para além de Burial, a edição dos álbuns de Kode9 ou Skream trataram de conferir credibilidade ao fenómeno, mas desde logo ficou evidente que Burial transcendia qualquer tentativa de classificação. A sua música possui características atribuíveis ao dubstep - as ambiências opacas sacudidas por subgraves ou as reverberações do dub - mas organizadas de forma singular.
Um ano depois regressa com outra obra admirável. Mais um disco de silhuetas, evocando cidades adormecidas povoadas por seres solitários, tacteando na escuridão. Cadências rítmicas disjuntas que se desenvolvem vagarosamente e vozes que se diluem por entre camadas de som vindas de paragens longínquas. Mas agora há mais luz. Mais profundidade de campo. Maior intensidade dramática. E muito mais vozes.
São canções, mas canções entoadas por quem necessita de auxílio e já não tem voz. São canções, mas rodeadas de abstracção. São indícios, fantasmas que se agitam ao som de música remota, distorcida no contexto de um sonho.
Pensa-se na electrónica granulada das produções da obscura mas mítica editora alemã Basic Channel. No som metalizado do drum & bass produzido por Photek. Em Goldie do álbum "Timeless". Nas produções dub do excêntrico Lee Perry. Nos ambientes enevoados de algumas canções dos Joy Division. Ou em Brian Eno.
Pensa-se nisso e não se chega a lugar algum. Porque "Untrue" é o tipo de obra aberta, vulnerável, com capacidade de partilha, convite para cada um mapear a sua geografia íntima, criando a sua própria banda sonora.

Vítor Belanciano in Público | 16-11-2007|

Tracks:

01 Untitled (0:45)
02 Archangel (3:59)
03 Near Dark (3:53)
04 Ghost Hardware (4:54)
05 Endorphin (2:57)
06 Etched Headplate (6:00)
07 In Mcdonalds (2:09)
08 Untrue (6:16)
09 Shell Of Light (4:41)
10 Dog Shelter (2:58)
11 Homeless (5:26)
12 UK (1:42)
13 Raver (4:58)

Amon Tobin - The Foley Room

Amon Tobin - The Foley Room (4/5)

Ninja Tune / Symbiose

Há dez anos, no seu primeiro álbum em nome próprio ("Bricolage"), com a electrónica a consolidar definitivamente um sentido lúdico, Amon Tobin entregava-se à arquitectura de batidas herdadas às polirritmias do jazz menos óbvio. Era um disco relativamente simples, para mais tendo em conta o seguinte e o magnífico "Permutation" (1998): a paleta dos sons a samplar abriu-se, mais instrumentos foram admitidos à contenda, e Tobin passou a trabalhar o som de raiz, como que elidindo a linha que separa orgânico de inorgânico. Em determinadas passagens a música poderia sugerir por um pesadelo mental mas noutras havia um olho clínico para a melodia.
Dois anos depois "Supermodified" retomava alguma da música de fusão jazz e psicadélica que servira de inspiração anterior, as batidas continuavam em mutação, por vezes mais agressivas do que antes, mas ficava a impressão de que fora no disco anterior que uma linguagem se definira: batidas densas e arquitecturalmente complexas, grandes massas sinfónicas em mutação.
"Out from out where", o disco de 2002, confirmava a entrada num mundo cada vez mais negro, e "The Foley Room" ainda acentua mais essa percepção. Uma "Foley Room" é uma caixa de ressonância em que o mais minúsculo som parece uma explosão numa pedreira. A esta informação adicionemos uma segunda: Tobin terá andado pelas ruas a gravar todo o som que encontrasse. Por todo o álbum há miríades de sons cuja origem é impossível de traçar, pequenos répteis assustadores que aparecem e desaparecem.
O material à disposição foi grande: os habituais "samples" para as batidas, muito material orgânico (do Kronos Quartet aos To Rococo Rot) e o material concreto. Tudo isto é tratado com uma propensão para a visceralidade que chega a ser assustadora. Na maior parte dos casos os temas têm várias partes e Tobin une cada elemento a cada porção de batida para que cada faixa evolua de forma orgânica, como um todo, um organismo em que cada parte implica a seguinte.
Não se trata de empilhar batidas em cima de um "loop", portanto. Numa extraordinária faixa, "Esther", o som de uma mota a acelerar serve para lançar a batida: à primeira aceleração temos algo que parece um "riff" de guitarra (impossível ter a certeza), a cada nova aceleração temos um novo quadro sonoro, com concomitante alteração das batidas.
"Bloodstone", o tema que abre o disco entre pianos e violinos, aproxima-se da tristeza infinda de Matt Elliot, "Keep your distance" parte de uma linha de baixo de conotações árabes, um jogo de timbalões e pratos que lhe confere uma carga onírica, flautas filtradas. Depois da demência há um som ascensional que pacifica o tema.
Em "The Killer"s Vanilla" o brasileiro parece pilhar sons dos anos 50. O mesmo acontece em "Straight Psyche", que chega a incluir uma voz - são as faixas mais melódicas, mas não são as melhores: essas, por hoje, são "Big Furry Head" e "Ever Falling". A primeira parte de nota repetida de órgão, à qual são adicionados elementos de piano e violino, com uma produção seca. A segunda parte de dois acordes de guitarra e de coros angelicais em fundo - e tem algo de "cartoonesco". Estamos nos antípodas do universo de batidas pesadas de "Always", décima faixa.
O drum"n"bass é hoje uma linguagem institucionalizada e podemos quase arriscar dizer que para Tobin pouco importa: interessa-lhe moldar todos os sons à sua volta até construir, em cada tema, uma porção de som absolutamente unívoca e original cuja ligação ao material "canção" seja mínima e suficiente para acreditarmos que ele é humano. Não se faz muita música assim. O melhor disco de Amon Tobin em sete anos.

João Bonifácio in Público | 06-04-2007|

Tracks:

01 Bloodstone
02 Esther's
03 Keep Your Distance
04 The Killer's Vanilla
05 Kitchen Sink
06 Horsefish
07 Foley Room
08 Big Furry Head
09 Ever Falling
10 Always
11 Straight Psyche
12 At The End Of The Day

Wise in Time - The Ballad Of Den The Men

Wise in Time - The Ballad Of Den The Men (8/10)

Crammed Discs / Megamúsica

Continua a pisar terrenos singulares Ian Simmonds. Ao longo dos anos o músico gaulês foi conotado com idiomas emergentes, mas manteve sempre uma atitude ambígua em relação a essas movimentações. Na alvorada dos anos 90, quando a corrente acid-jazz vingava em Londres, formou os Sandals, projecto inclassificável que se inspirava em diferentes linguagens (dub, house, rock, jazz) consumando uma esquiva sonoridade dançante. Entre 1997 e 2002, quando os Kruder & Dorfmeister, Rockers Hi-Fi ou Fila Brazillia instituíam uma expressão elegante inspirada em processos tecnológicos, Ian Simmonds, em nome próprio, ou como Juryman, desenvolveu ao longo de cinco álbuns uma música jazzistica orgânica e vertiginosa.
Regressa agora com um registo diferente do que até aqui havia feito, embora os ambientes nebulosos de álbuns como "Last States Of Nature" ou "The Hill" se mantenham. Quatro anos depois do último lançamento (álbum "Escape To Where" de Juryman) não está só. Assume, pela primeira vez, a vocalização de todas das canções e retorna com um novo projecto colectivo, Wise In Time, rodeando-se de quatro músicos de jazz alemães, que conheceu na pequena localidade de Jena, perto de Dresden, para onde se mudou com para criar este disco.
"The Ballad Of Den The Men" é, como os seus anteriores registos, um daqueles discos que parece sorver o ar dos tempos e, no entanto, completamente ausente de qualquer pressão temporal, habitando um universo próprio - um lugar de silhuetas, habitado por ondas de escuro, onde a música parece tactear, vacilando pelas artérias sombrias que escolheu percorrer. Apesar da profundidade de campo é um disco claustrofóbico, onde todas as canções fazem sentido ouvidas em conjunto. Não há passado, nem presente, nem futuro, apenas uma música assombrada, composta por sinais, tonalidades e vozes que vão e vêm sem deixaram pegadas reconhecíveis.
A voz inimitável de Simmonds parece segredar-nos ao ouvido, as dinâmicas acústicas evocam os blues, as guitarras folk introduzem-se vagarosamente nas tonalidades jazzísticas, flutuando no espaço. Há impressões quase imperceptíveis de electrónicas, ruídos da natureza confundidos com pianos eléctricos e orquestrações que contribuem para uma apurada definição dos ambientes. No fim permanece, constante, um desenho global solene e nocturno, numa música colectiva, dirigida pela demão estética de Simmonds, onde o jazz, os blues, a folk e as electrónicas se fragmentam, voltam a agregar-se, formando um corpo só, elevando-se na escuridão. Magnífico.

Vítor Belanciano in Público | 26-05-2006|

Tracks:

01. The Fox 4:12
02. Firing Line 4:42
03. Nine 4:05
04. Lord 5:09
05. Crazy Chair 3:19
06. Backfire Band 3:24
07. Letters 4:49
08. Verfolgen ... 4:36
09. Ballad of Den the Men 4:05
10. The Well 5:02
11. Jah Walker 4:39
12. Part Two 5:27
13. The Station 4:09