Eis o típico objecto capaz de gerar um fenómeno de culto e de,
simultaneamente, provocar ataques de urticária em muita gente. É quase sempre
assim com discos como "Finally We Are No One". Discos feitos no fio da
navalha das emoções mais delicadas, alheios ao mundo circundante. Alheios a
quase tudo na verdade. Discos que não se preocupam tanto em reflectir a
realidade, mas sim em construir mundos paralelos.
Existem muitos outros grupos assim no contexto da música actual. Não partilham
afinidades estéticas, mas sim estados de espírito. Pode ser a pop-folk ingénua
dos Kings Of Convenience, o neo-rock introspectivo dos Sigur Rós ou a
electropop intíma e microscópica de Björk e dos alemães Laub dos últimos álbuns.
A uni-los essa ideia de que o sonho pode comandar a música.
Talvez por isso, o que os islandeses Múm gostam mesmo é de andar de bicicleta.
Por isso, vivem entre Reiquejavique e Berlim. Cidades planas, lá onde se pode
andar de bicicleta em passeios largos, ao mesmo tempo que se saboreia um gelado
e se anda se 'headphones' nos ouvidos. O ano passado, em entrevista à revista
inglesa "Sleazenation" confessavam: "a música tem uma relação
especial com o tempo e, principalmente, com o espaço. Pensamos que é agradável
ouvir este disco enquanto se anda de bicicleta. Pode ser num espaço rural, mas
qualquer cidade espaçosa serve".
O disco em questão era o álbum de estreia, "Yesterday Was Dramatic, Today
Is Ok", mas a ideia pode servir perfeitamente para o novo álbum, até
porque o assunto bicicletas continua a dominar a vida dos quatro islandeses como
se constata numa entrevista recente à revista "Jockey Slut". São
putos os Múm - têm todos cerca de 20 anos - e só lhes fica bem.
São quatro. Os rapazes Gunnar Örn Tynes e Örvar Smárason e as irmãs gémeas
de formação clássica Kristín Anna e Gyoa Valtysdóttir. Deles diz-se que são
tristes, da música que é dramática. Eles devem rir-se de tudo, porque "Finally
We Are No One" é a respiração natural de dois rapazes e duas raparigas
islandeses em dia de luminosa melancolia.
É um disco feito de uma nostalgia faz-de-conta, dominado por complexas programações
rítmicas, melodias irresistivelmente pop, texturas etéreas, lentos movimentos
electrónicos, incompreensíveis e ocasionais sussuros vocais e desenvolvimentos
acústicos proporcionados pelo acordeão, violoncelo ou baixo. "Finally We
Are No One" é uma caixa-de-música ternurenta e afectuosa. É como uma fábula,
alguns vão acreditar e entrar nela, outros vão ficar à porta.
Tracks:
1. Sleep/swim
2. Green Grass of Tunnel
3. We Have a Map of the Piano
4. Don’t Be Afraid, You Have Just Got Your Eyes Closed
5. Behind Two Hills..... a Swimmingpool
6. K/half Noise
7. Now There’s That Fear Again
8. Faraway Swimmingpool
9. I Can’t Feel My Hand Any More, It’s Allright, Sleep Still
10. Finally We Are No One
11. The Land Between Solar Systems
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