.....bit Sounds "Escrítica" POP

Recolha e Arquivo by Zito ..............

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2007-12-11

Múm - Finally We Are No One (8/10)

Fat Cat / Ananana

Eis o típico objecto capaz de gerar um fenómeno de culto e de, simultaneamente, provocar ataques de urticária em muita gente. É quase sempre assim com discos como "Finally We Are No One". Discos feitos no fio da navalha das emoções mais delicadas, alheios ao mundo circundante. Alheios a quase tudo na verdade. Discos que não se preocupam tanto em reflectir a realidade, mas sim em construir mundos paralelos.
Existem muitos outros grupos assim no contexto da música actual. Não partilham afinidades estéticas, mas sim estados de espírito. Pode ser a pop-folk ingénua dos Kings Of Convenience, o neo-rock introspectivo dos Sigur Rós ou a electropop intíma e microscópica de Björk e dos alemães Laub dos últimos álbuns. A uni-los essa ideia de que o sonho pode comandar a música.
Talvez por isso, o que os islandeses Múm gostam mesmo é de andar de bicicleta. Por isso, vivem entre Reiquejavique e Berlim. Cidades planas, lá onde se pode andar de bicicleta em passeios largos, ao mesmo tempo que se saboreia um gelado e se anda se 'headphones' nos ouvidos. O ano passado, em entrevista à revista inglesa "Sleazenation" confessavam: "a música tem uma relação especial com o tempo e, principalmente, com o espaço. Pensamos que é agradável ouvir este disco enquanto se anda de bicicleta. Pode ser num espaço rural, mas qualquer cidade espaçosa serve".
O disco em questão era o álbum de estreia, "Yesterday Was Dramatic, Today Is Ok", mas a ideia pode servir perfeitamente para o novo álbum, até porque o assunto bicicletas continua a dominar a vida dos quatro islandeses como se constata numa entrevista recente à revista "Jockey Slut". São putos os Múm - têm todos cerca de 20 anos - e só lhes fica bem.
São quatro. Os rapazes Gunnar Örn Tynes e Örvar Smárason e as irmãs gémeas de formação clássica Kristín Anna e Gyoa Valtysdóttir. Deles diz-se que são tristes, da música que é dramática. Eles devem rir-se de tudo, porque "Finally We Are No One" é a respiração natural de dois rapazes e duas raparigas islandeses em dia de luminosa melancolia.
É um disco feito de uma nostalgia faz-de-conta, dominado por complexas programações rítmicas, melodias irresistivelmente pop, texturas etéreas, lentos movimentos electrónicos, incompreensíveis e ocasionais sussuros vocais e desenvolvimentos acústicos proporcionados pelo acordeão, violoncelo ou baixo. "Finally We Are No One" é uma caixa-de-música ternurenta e afectuosa. É como uma fábula, alguns vão acreditar e entrar nela, outros vão ficar à porta.

Vítor Belanciano in Público | 24-05-2002|

Tracks:

1. Sleep/swim
2. Green Grass of Tunnel
3. We Have a Map of the Piano
4. Don’t Be Afraid, You Have Just Got Your Eyes Closed
5. Behind Two Hills..... a Swimmingpool
6. K/half Noise
7. Now There’s That Fear Again
8. Faraway Swimmingpool
9. I Can’t Feel My Hand Any More, It’s Allright, Sleep Still
10. Finally We Are No One
11. The Land Between Solar Systems

2007-11-25

Sparklehorse - Dreamt for light ...

Sparklehorse - Dreamt for light years in the belly of a mountain (8/10)

Astralwerks / EMI

Danger Mouse obrigou-o a recuperar canções antigas que não tinham entrado em disco, a resgatar os bocadinhos de som que havia gravado, mesmo que não tivessem estrutura. Segundo Linkous, Danger Mouse retirava uma guitarra de um canção e punha noutra, noutro tom, depois de a filtrar, triturar, embelezar.
Disco nublado, constantemente a sair do ruído para pairar nos cimos de uma beleza uterina, é feito de nuvens de distorção rasgadas por flautas e vozes ameninadas. "Don"t take my sunshine away" é a versão negra do indie-pop-regressivo, órgãos vintage no baloiço de uma harmonia de guitarras, violoncelos sérios mirando a voz de birra de Linkous, e o refrão, com coros planantes, a surgirem no meio da ferrugem. Está dois palmos acima do melhor dos Grandaddy ou dos Yo La Tengo, imersa em líquido amniótico antes de descambar num duelo de guitarras e vozes distorcidas até ao osso. No fim uma voz feminina repete "sunshine".
A voz surge muitas vezes alterada - em "Gettint it wrong" torna-se um gemer infantil, não no sentido transcendental de "Rock bottom", de Robert Wyatt, mas de pura dor, como uma criança que tivesse rasgado o joelho. Não há uma única canção que não seja melodicamente irrepreensível.
Há melódicas, órgãos antigos, guitarras acústicas distorcidas, cordas maradas, xilofones, flautas infantis. A progressão de guitarra de "Shade and honey" remete-nos para o universo da adolescência, ressaca após vomitar no milheiral à porta da discoteca, domingo nublado, almoço de restos do dia anterior, pequena discussão, a namorada que não atende o telefone, já se perdia a virgindade, o FC Porto perdeu em casa. O refrão tem coros a entoar "Made of honey". Aquilo é uma flauta. Aquilo é um xilofone. Aquilo é um violoncelo. Isto é beleza. Beleza impressionante, diríamos, enquanto nos ocorre que há mais 49 mil 999 pessoas a concordar connosco (coisa que não se sabíamos na adolescência).
"Return to me" parece querer retratar aquilo que imaginamos ser penúria. Mas isso é subjectivo e a humanidade não gosta disso. Objectivamente tem uma guitarra acústica e voz. Objectivamente "Some sweet day" será a canção mais propensa a encantar os amantes de "It"s a wonderfull lief", toda órgãos, baixos pulsantes debaixo de uma produção densa, com a voz a procurar um lugar de alegria no refrão. Objectivamente, Beck daria seis dedos do pé esquerdo para escrever uma canção assim.
Nós andamos por cá, fazemos asneiras diariamente, alguém apara a relva no jardim para que a geometria esconda o rebuliço nos intestinos. "Dreamt for light years..." é só rebuliço nos intestinos, geometricamente disposto para encantar. Linkous nem está salvo nem se tornará "um ser humano melhor".
Os canteiros estão aparados, dentro de casa ouvimos baixinho discos dos Sparklehorse. Mark Linkous canta "It"s not so hard". Os canteiros estão aparados.

João Bonifácio in Público | 13-10-2006|

Tracks:

01. Don't Take My Sunshine Away
02. Getting It Wrong
03. Shade And Honey
04. See The Light
05. Return To Me
06. Some Sweet Day
07. Ghost In The Sky
08. Mountains
09. Morning Hollow
10. It's Not So Hard
11. Knives Of Summertime
12. Dreamt For Light Years In The Belly Of A Mountain

Wise in Time - The Ballad Of Den The Men

Wise in Time - The Ballad Of Den The Men (8/10)

Crammed Discs / Megamúsica

Continua a pisar terrenos singulares Ian Simmonds. Ao longo dos anos o músico gaulês foi conotado com idiomas emergentes, mas manteve sempre uma atitude ambígua em relação a essas movimentações. Na alvorada dos anos 90, quando a corrente acid-jazz vingava em Londres, formou os Sandals, projecto inclassificável que se inspirava em diferentes linguagens (dub, house, rock, jazz) consumando uma esquiva sonoridade dançante. Entre 1997 e 2002, quando os Kruder & Dorfmeister, Rockers Hi-Fi ou Fila Brazillia instituíam uma expressão elegante inspirada em processos tecnológicos, Ian Simmonds, em nome próprio, ou como Juryman, desenvolveu ao longo de cinco álbuns uma música jazzistica orgânica e vertiginosa.
Regressa agora com um registo diferente do que até aqui havia feito, embora os ambientes nebulosos de álbuns como "Last States Of Nature" ou "The Hill" se mantenham. Quatro anos depois do último lançamento (álbum "Escape To Where" de Juryman) não está só. Assume, pela primeira vez, a vocalização de todas das canções e retorna com um novo projecto colectivo, Wise In Time, rodeando-se de quatro músicos de jazz alemães, que conheceu na pequena localidade de Jena, perto de Dresden, para onde se mudou com para criar este disco.
"The Ballad Of Den The Men" é, como os seus anteriores registos, um daqueles discos que parece sorver o ar dos tempos e, no entanto, completamente ausente de qualquer pressão temporal, habitando um universo próprio - um lugar de silhuetas, habitado por ondas de escuro, onde a música parece tactear, vacilando pelas artérias sombrias que escolheu percorrer. Apesar da profundidade de campo é um disco claustrofóbico, onde todas as canções fazem sentido ouvidas em conjunto. Não há passado, nem presente, nem futuro, apenas uma música assombrada, composta por sinais, tonalidades e vozes que vão e vêm sem deixaram pegadas reconhecíveis.
A voz inimitável de Simmonds parece segredar-nos ao ouvido, as dinâmicas acústicas evocam os blues, as guitarras folk introduzem-se vagarosamente nas tonalidades jazzísticas, flutuando no espaço. Há impressões quase imperceptíveis de electrónicas, ruídos da natureza confundidos com pianos eléctricos e orquestrações que contribuem para uma apurada definição dos ambientes. No fim permanece, constante, um desenho global solene e nocturno, numa música colectiva, dirigida pela demão estética de Simmonds, onde o jazz, os blues, a folk e as electrónicas se fragmentam, voltam a agregar-se, formando um corpo só, elevando-se na escuridão. Magnífico.

Vítor Belanciano in Público | 26-05-2006|

Tracks:

01. The Fox 4:12
02. Firing Line 4:42
03. Nine 4:05
04. Lord 5:09
05. Crazy Chair 3:19
06. Backfire Band 3:24
07. Letters 4:49
08. Verfolgen ... 4:36
09. Ballad of Den the Men 4:05
10. The Well 5:02
11. Jah Walker 4:39
12. Part Two 5:27
13. The Station 4:09