.....bit Sounds "Escrítica" POP

Recolha e Arquivo by Zito ..............

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2007-11-26

Akron/Family - Love Is Simple

Young God Records /

Se fôssemos ligar à semântica, era suposto que o nome folk desse para tudo, pelo menos no sentido de folclore, o "lore" do povo - quando muito poderíamos ter dificuldades na interpretação da palavra "povo". Mas, por alguma razão, a folk atribui-se o sentido de música com guitarras acústicas e moços a protestar ou a ganir histórias de traições.
Por isso fez sentido quando há anos surgiu a denominação "free folk" para uma série de projectos que, mantendo a ruralidade e a primitividade, retiravam as mencionadas âncoras conservadoras à sua música. Dos Six Organs of Admittance aos Sunburned Hand of the Man, muita coisa coube na denominação "free folk". Por exemplo, os Akron Family foram postos no saco, muito embora sejam inclassificáveis. E se não acreditam, têm remédio: (...)
Editados pela Young God Records, de Michael Gira (o homem que descobriu Devendra Banhart), os Akron Family encontram o seu lugar na raiz primitiva do rock, ou, pelo menos, no nódulo de que o tronco parte, com todos os géneros ainda por se ramificarem e definir: a folk, o Gospel, a força telúrica da country e algo de primitivo, quase punk na explosão das guitarras, tudo num só mundo, tudo num só veio.
Estão, portanto, mais próximos de bandas como Black Mountain ou Black Angels, outros cultores de um rock rural, visceral, negro e melífluo, que das influências teutónicas e vanguardistas da dita "free folk". Basicamente: nas mãos dos Akron/Family a The Band pode tornar-se uma capela negra ou descobrir o inferno do "feedback". Não é por acaso que têm uma (extraordinária) canção chamada "Dylan, pt 2".
Mas há mais que isto: nas canções dos Akron/Family podemos encontrar gemidos próximos de alguns exercícios de Robert Wyatt, harmonias celestiais, serradura eléctrica a lembrar os Credence Clearwater Revival, algum psicadelismo, alguma religiosidade demente. Nunca se atinge a perfeita forma da canção, antes parecem que a estão a tentar evitar ou que por mais que tentem nunca a irão alcançar.
Se quiserem podem dizer que há um lado improvisacional neles, falar em pós-rock, citar Captain Beefheart, enumerar a ordem maldita do rock, recordar os 13th Floor Elevators à conta do LSD pipetado nas seis cordas de um solo mais sanguinário. Estão à vontade: nos três discos que a Akron/Family editou em dois anos ("Akron/Family", de 2005, "Akron/Family & Angels of Light", um "split" com os Angels of Light, em 2005, e "Meek Warrior" de 2006) há lugar para tudo e na estante das referências há lugar ainda para mencionarem a folk de Canterbury ou a colectânea de música americana de Harry Smith. Vale tudo, desde que seja rural, violento, polifónico, sofisticado, épico, minimal, doce, lento, ruidoso e silencioso.
Vale tudo desde que algures por ali vagueie esse fantasma doentio e fascinante chamado rock"n"roll

João Bonifácio in Público | 24-04-2007|

Tracks:

01. Love, Love, Love (Everyone) 1:46
02. Ed Is A Portal 7:31
03. Don't Be Afraid, You're Already Dead 4:36
04. I've Got Some Friends 3:09
05. Lake Song/New Ceremonial Music For Moms 7:24
06. There's So Many Colors 8:11
07. Crickets 3:59
08. Phenomena 3:46
09. Pony's O.G. 5:20
10. Of All The Things 7:41
11. Love, Love, Love (Reprise) 3:07

2007-11-25

Sparklehorse - Dreamt for light ...

Sparklehorse - Dreamt for light years in the belly of a mountain (8/10)

Astralwerks / EMI

Danger Mouse obrigou-o a recuperar canções antigas que não tinham entrado em disco, a resgatar os bocadinhos de som que havia gravado, mesmo que não tivessem estrutura. Segundo Linkous, Danger Mouse retirava uma guitarra de um canção e punha noutra, noutro tom, depois de a filtrar, triturar, embelezar.
Disco nublado, constantemente a sair do ruído para pairar nos cimos de uma beleza uterina, é feito de nuvens de distorção rasgadas por flautas e vozes ameninadas. "Don"t take my sunshine away" é a versão negra do indie-pop-regressivo, órgãos vintage no baloiço de uma harmonia de guitarras, violoncelos sérios mirando a voz de birra de Linkous, e o refrão, com coros planantes, a surgirem no meio da ferrugem. Está dois palmos acima do melhor dos Grandaddy ou dos Yo La Tengo, imersa em líquido amniótico antes de descambar num duelo de guitarras e vozes distorcidas até ao osso. No fim uma voz feminina repete "sunshine".
A voz surge muitas vezes alterada - em "Gettint it wrong" torna-se um gemer infantil, não no sentido transcendental de "Rock bottom", de Robert Wyatt, mas de pura dor, como uma criança que tivesse rasgado o joelho. Não há uma única canção que não seja melodicamente irrepreensível.
Há melódicas, órgãos antigos, guitarras acústicas distorcidas, cordas maradas, xilofones, flautas infantis. A progressão de guitarra de "Shade and honey" remete-nos para o universo da adolescência, ressaca após vomitar no milheiral à porta da discoteca, domingo nublado, almoço de restos do dia anterior, pequena discussão, a namorada que não atende o telefone, já se perdia a virgindade, o FC Porto perdeu em casa. O refrão tem coros a entoar "Made of honey". Aquilo é uma flauta. Aquilo é um xilofone. Aquilo é um violoncelo. Isto é beleza. Beleza impressionante, diríamos, enquanto nos ocorre que há mais 49 mil 999 pessoas a concordar connosco (coisa que não se sabíamos na adolescência).
"Return to me" parece querer retratar aquilo que imaginamos ser penúria. Mas isso é subjectivo e a humanidade não gosta disso. Objectivamente tem uma guitarra acústica e voz. Objectivamente "Some sweet day" será a canção mais propensa a encantar os amantes de "It"s a wonderfull lief", toda órgãos, baixos pulsantes debaixo de uma produção densa, com a voz a procurar um lugar de alegria no refrão. Objectivamente, Beck daria seis dedos do pé esquerdo para escrever uma canção assim.
Nós andamos por cá, fazemos asneiras diariamente, alguém apara a relva no jardim para que a geometria esconda o rebuliço nos intestinos. "Dreamt for light years..." é só rebuliço nos intestinos, geometricamente disposto para encantar. Linkous nem está salvo nem se tornará "um ser humano melhor".
Os canteiros estão aparados, dentro de casa ouvimos baixinho discos dos Sparklehorse. Mark Linkous canta "It"s not so hard". Os canteiros estão aparados.

João Bonifácio in Público | 13-10-2006|

Tracks:

01. Don't Take My Sunshine Away
02. Getting It Wrong
03. Shade And Honey
04. See The Light
05. Return To Me
06. Some Sweet Day
07. Ghost In The Sky
08. Mountains
09. Morning Hollow
10. It's Not So Hard
11. Knives Of Summertime
12. Dreamt For Light Years In The Belly Of A Mountain

Felt - Stains on a Decade

Felt - Stains on a Decade

Cherry Red /

(...)Mas, muito sinceramente, Dylan e Van Zandt assombram o disco por todo o lado - especialmente o Bob de "Blood on the Tracks" parece ser o espírito-guia de canções como a magistral "She lives by the castel" (neste momento a melhor etcetcetc, o leitor já conhece a cantiga). Dedinho de Mayo? "Não, ele foi o pior produtor do mundo", ri-se. "Coitado, era uma óptima pessoa, mas completamente louco. Na altura em que produzimos o disco ele ficou a morar em minha casa. Certo dia acordou a meio da noite e começou a passar-se. Fez as malas e voltou para Londres. Nunca mais o vi". Nada de grave, até porque Lawrence tirou uma importante lição de vida que, esperemos, o leitor siga: "Nunca confie numa velha estrela psicadélica". De golpe de anca em golpe de anca, "Pictorail Jackson Review" é mais uma obra-prima de minimalismo e estranha beleza. A primeira parte do álbum volta às canções à "Ignite..." (pop indie perfeitas), a segunda atira-se a um cocktail jazz meio negro meio martini, ou seja, martini no escuro. Estava tudo feito? Claro que não. Estavam planeados dez discos, seriam dez discos.Em 88 ainda sairia "Train Above The City", todo da responsabilidade de Duffy, teclas e jazz e mais martinis. Enigmático, mas a espaços delicioso. Também não foi reeditado. E depois, em 89, o fim: "Me and The Monkey On The Moon", última obra-prima, levando ainda mais longe (e aprofundando o eclectismo) de "Ignite..." e da primeira metade de "Pictorial...". Vá-se lá saber porquê, também não foi reeditado. Cumprindo o plano original, os Felt lançaram dez singles em dez anos - e alguns desses singles não faziam parte dos álbuns de estúdio (uma mania estranha que se perdeu nos anos 80). É exactamente essa colecção de singles que "Stains On a Decade" compila. Ouvida assim, dá uma ideia diferente dos Felt, mais eclécticos e experimentadores, capazes de fazer singles orelhudos e simultaneamente estranhos. Há lá uma versão de Brian Wilson e, em "Space blues", ouve-se "I don't wanna give a damn". Também foi posto à venda um DVD, "A Declaration", que musicalmente é irrepreensível - mas meio manhoso em termos de imagem.Fim de conversa, pergunta-se ao homem que um dia cantou "I will be the first man in history to die of boredom" (e que depois dos Felt fundou os deliciosos Denim e os Go-Kart Mozart) o que lhe falta. Resposta: "Ser maior que Dylan". Parece perfeito.

João Bonifácio in Público | 20-02-2004|

Tracks:

01.Something Sends Me To Sleep
02.Trails Of Color Dissolve
03.Penelope Tree
04.Sunlight Bathed The Golden Glow
05.Fortune
06.Dismantled King Is Off The Throne
07.Primitive Painters
08.Ballad Of The Band
09.I Didn't Mean To Hurt You
10.I Will Die With My Head In Flames
11.Bandmans On The Rise Again
12.Final Resting Of The Ark, The
13.There's No Such Thing As Victory
14.Be Still
15.Space Blues

Amon Tobin - The Foley Room

Amon Tobin - The Foley Room (4/5)

Ninja Tune / Symbiose

Há dez anos, no seu primeiro álbum em nome próprio ("Bricolage"), com a electrónica a consolidar definitivamente um sentido lúdico, Amon Tobin entregava-se à arquitectura de batidas herdadas às polirritmias do jazz menos óbvio. Era um disco relativamente simples, para mais tendo em conta o seguinte e o magnífico "Permutation" (1998): a paleta dos sons a samplar abriu-se, mais instrumentos foram admitidos à contenda, e Tobin passou a trabalhar o som de raiz, como que elidindo a linha que separa orgânico de inorgânico. Em determinadas passagens a música poderia sugerir por um pesadelo mental mas noutras havia um olho clínico para a melodia.
Dois anos depois "Supermodified" retomava alguma da música de fusão jazz e psicadélica que servira de inspiração anterior, as batidas continuavam em mutação, por vezes mais agressivas do que antes, mas ficava a impressão de que fora no disco anterior que uma linguagem se definira: batidas densas e arquitecturalmente complexas, grandes massas sinfónicas em mutação.
"Out from out where", o disco de 2002, confirmava a entrada num mundo cada vez mais negro, e "The Foley Room" ainda acentua mais essa percepção. Uma "Foley Room" é uma caixa de ressonância em que o mais minúsculo som parece uma explosão numa pedreira. A esta informação adicionemos uma segunda: Tobin terá andado pelas ruas a gravar todo o som que encontrasse. Por todo o álbum há miríades de sons cuja origem é impossível de traçar, pequenos répteis assustadores que aparecem e desaparecem.
O material à disposição foi grande: os habituais "samples" para as batidas, muito material orgânico (do Kronos Quartet aos To Rococo Rot) e o material concreto. Tudo isto é tratado com uma propensão para a visceralidade que chega a ser assustadora. Na maior parte dos casos os temas têm várias partes e Tobin une cada elemento a cada porção de batida para que cada faixa evolua de forma orgânica, como um todo, um organismo em que cada parte implica a seguinte.
Não se trata de empilhar batidas em cima de um "loop", portanto. Numa extraordinária faixa, "Esther", o som de uma mota a acelerar serve para lançar a batida: à primeira aceleração temos algo que parece um "riff" de guitarra (impossível ter a certeza), a cada nova aceleração temos um novo quadro sonoro, com concomitante alteração das batidas.
"Bloodstone", o tema que abre o disco entre pianos e violinos, aproxima-se da tristeza infinda de Matt Elliot, "Keep your distance" parte de uma linha de baixo de conotações árabes, um jogo de timbalões e pratos que lhe confere uma carga onírica, flautas filtradas. Depois da demência há um som ascensional que pacifica o tema.
Em "The Killer"s Vanilla" o brasileiro parece pilhar sons dos anos 50. O mesmo acontece em "Straight Psyche", que chega a incluir uma voz - são as faixas mais melódicas, mas não são as melhores: essas, por hoje, são "Big Furry Head" e "Ever Falling". A primeira parte de nota repetida de órgão, à qual são adicionados elementos de piano e violino, com uma produção seca. A segunda parte de dois acordes de guitarra e de coros angelicais em fundo - e tem algo de "cartoonesco". Estamos nos antípodas do universo de batidas pesadas de "Always", décima faixa.
O drum"n"bass é hoje uma linguagem institucionalizada e podemos quase arriscar dizer que para Tobin pouco importa: interessa-lhe moldar todos os sons à sua volta até construir, em cada tema, uma porção de som absolutamente unívoca e original cuja ligação ao material "canção" seja mínima e suficiente para acreditarmos que ele é humano. Não se faz muita música assim. O melhor disco de Amon Tobin em sete anos.

João Bonifácio in Público | 06-04-2007|

Tracks:

01 Bloodstone
02 Esther's
03 Keep Your Distance
04 The Killer's Vanilla
05 Kitchen Sink
06 Horsefish
07 Foley Room
08 Big Furry Head
09 Ever Falling
10 Always
11 Straight Psyche
12 At The End Of The Day