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2007-11-25

Amon Tobin - The Foley Room

Amon Tobin - The Foley Room (4/5)

Ninja Tune / Symbiose

Há dez anos, no seu primeiro álbum em nome próprio ("Bricolage"), com a electrónica a consolidar definitivamente um sentido lúdico, Amon Tobin entregava-se à arquitectura de batidas herdadas às polirritmias do jazz menos óbvio. Era um disco relativamente simples, para mais tendo em conta o seguinte e o magnífico "Permutation" (1998): a paleta dos sons a samplar abriu-se, mais instrumentos foram admitidos à contenda, e Tobin passou a trabalhar o som de raiz, como que elidindo a linha que separa orgânico de inorgânico. Em determinadas passagens a música poderia sugerir por um pesadelo mental mas noutras havia um olho clínico para a melodia.
Dois anos depois "Supermodified" retomava alguma da música de fusão jazz e psicadélica que servira de inspiração anterior, as batidas continuavam em mutação, por vezes mais agressivas do que antes, mas ficava a impressão de que fora no disco anterior que uma linguagem se definira: batidas densas e arquitecturalmente complexas, grandes massas sinfónicas em mutação.
"Out from out where", o disco de 2002, confirmava a entrada num mundo cada vez mais negro, e "The Foley Room" ainda acentua mais essa percepção. Uma "Foley Room" é uma caixa de ressonância em que o mais minúsculo som parece uma explosão numa pedreira. A esta informação adicionemos uma segunda: Tobin terá andado pelas ruas a gravar todo o som que encontrasse. Por todo o álbum há miríades de sons cuja origem é impossível de traçar, pequenos répteis assustadores que aparecem e desaparecem.
O material à disposição foi grande: os habituais "samples" para as batidas, muito material orgânico (do Kronos Quartet aos To Rococo Rot) e o material concreto. Tudo isto é tratado com uma propensão para a visceralidade que chega a ser assustadora. Na maior parte dos casos os temas têm várias partes e Tobin une cada elemento a cada porção de batida para que cada faixa evolua de forma orgânica, como um todo, um organismo em que cada parte implica a seguinte.
Não se trata de empilhar batidas em cima de um "loop", portanto. Numa extraordinária faixa, "Esther", o som de uma mota a acelerar serve para lançar a batida: à primeira aceleração temos algo que parece um "riff" de guitarra (impossível ter a certeza), a cada nova aceleração temos um novo quadro sonoro, com concomitante alteração das batidas.
"Bloodstone", o tema que abre o disco entre pianos e violinos, aproxima-se da tristeza infinda de Matt Elliot, "Keep your distance" parte de uma linha de baixo de conotações árabes, um jogo de timbalões e pratos que lhe confere uma carga onírica, flautas filtradas. Depois da demência há um som ascensional que pacifica o tema.
Em "The Killer"s Vanilla" o brasileiro parece pilhar sons dos anos 50. O mesmo acontece em "Straight Psyche", que chega a incluir uma voz - são as faixas mais melódicas, mas não são as melhores: essas, por hoje, são "Big Furry Head" e "Ever Falling". A primeira parte de nota repetida de órgão, à qual são adicionados elementos de piano e violino, com uma produção seca. A segunda parte de dois acordes de guitarra e de coros angelicais em fundo - e tem algo de "cartoonesco". Estamos nos antípodas do universo de batidas pesadas de "Always", décima faixa.
O drum"n"bass é hoje uma linguagem institucionalizada e podemos quase arriscar dizer que para Tobin pouco importa: interessa-lhe moldar todos os sons à sua volta até construir, em cada tema, uma porção de som absolutamente unívoca e original cuja ligação ao material "canção" seja mínima e suficiente para acreditarmos que ele é humano. Não se faz muita música assim. O melhor disco de Amon Tobin em sete anos.

João Bonifácio in Público | 06-04-2007|

Tracks:

01 Bloodstone
02 Esther's
03 Keep Your Distance
04 The Killer's Vanilla
05 Kitchen Sink
06 Horsefish
07 Foley Room
08 Big Furry Head
09 Ever Falling
10 Always
11 Straight Psyche
12 At The End Of The Day

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