Há dez anos, no seu primeiro álbum em nome próprio ("Bricolage"), com a electrónica
a consolidar definitivamente um sentido lúdico, Amon Tobin entregava-se à arquitectura
de batidas herdadas às polirritmias do jazz menos óbvio. Era um disco relativamente
simples, para mais tendo em conta o seguinte e o magnífico "Permutation" (1998):
a paleta dos sons a samplar abriu-se, mais instrumentos foram admitidos à contenda,
e Tobin passou a trabalhar o som de raiz, como que elidindo a linha que separa orgânico
de inorgânico. Em determinadas passagens a música poderia sugerir por um pesadelo
mental mas noutras havia um olho clínico para a melodia.
Dois anos depois "Supermodified" retomava alguma da música de fusão jazz e psicadélica
que servira de inspiração anterior, as batidas continuavam em mutação, por vezes
mais agressivas do que antes, mas ficava a impressão de que fora no disco anterior
que uma linguagem se definira: batidas densas e arquitecturalmente complexas, grandes
massas sinfónicas em mutação.
"Out from out where", o disco de 2002, confirmava a entrada num mundo cada vez mais
negro, e "The Foley Room" ainda acentua mais essa percepção. Uma "Foley Room" é
uma caixa de ressonância em que o mais minúsculo som parece uma explosão numa pedreira.
A esta informação adicionemos uma segunda: Tobin terá andado pelas ruas a gravar
todo o som que encontrasse. Por todo o álbum há miríades de sons cuja origem é impossível
de traçar, pequenos répteis assustadores que aparecem e desaparecem.
O material à disposição foi grande: os habituais "samples" para as batidas, muito
material orgânico (do Kronos Quartet aos To Rococo Rot) e o material concreto. Tudo
isto é tratado com uma propensão para a visceralidade que chega a ser assustadora.
Na maior parte dos casos os temas têm várias partes e Tobin une cada elemento a
cada porção de batida para que cada faixa evolua de forma orgânica, como um todo,
um organismo em que cada parte implica a seguinte.
Não se trata de empilhar batidas em cima de um "loop", portanto. Numa extraordinária
faixa, "Esther", o som de uma mota a acelerar serve para lançar a batida: à primeira
aceleração temos algo que parece um "riff" de guitarra (impossível ter a certeza),
a cada nova aceleração temos um novo quadro sonoro, com concomitante alteração das
batidas.
"Bloodstone", o tema que abre o disco entre pianos e violinos, aproxima-se da tristeza
infinda de Matt Elliot, "Keep your distance" parte de uma linha de baixo de conotações
árabes, um jogo de timbalões e pratos que lhe confere uma carga onírica, flautas
filtradas. Depois da demência há um som ascensional que pacifica o tema.
Em "The Killer"s Vanilla" o brasileiro parece pilhar sons dos anos 50. O mesmo acontece
em "Straight Psyche", que chega a incluir uma voz - são as faixas mais melódicas,
mas não são as melhores: essas, por hoje, são "Big Furry Head" e "Ever Falling".
A primeira parte de nota repetida de órgão, à qual são adicionados elementos de
piano e violino, com uma produção seca. A segunda parte de dois acordes de guitarra
e de coros angelicais em fundo - e tem algo de "cartoonesco". Estamos nos antípodas
do universo de batidas pesadas de "Always", décima faixa.
O drum"n"bass é hoje uma linguagem institucionalizada e podemos quase arriscar dizer
que para Tobin pouco importa: interessa-lhe moldar todos os sons à sua volta até
construir, em cada tema, uma porção de som absolutamente unívoca e original cuja
ligação ao material "canção" seja mínima e suficiente para acreditarmos que ele
é humano. Não se faz muita música assim. O melhor disco de Amon Tobin em sete anos.
No comments:
Post a Comment