Se fôssemos ligar à semântica, era suposto que o nome folk desse para tudo, pelo
menos no sentido de folclore, o "lore" do povo - quando muito poderíamos ter dificuldades
na interpretação da palavra "povo". Mas, por alguma razão, a folk atribui-se o sentido
de música com guitarras acústicas e moços a protestar ou a ganir histórias de traições.
Por isso fez sentido quando há anos surgiu a denominação "free folk" para uma série
de projectos que, mantendo a ruralidade e a primitividade, retiravam as mencionadas
âncoras conservadoras à sua música. Dos Six Organs of Admittance aos Sunburned Hand
of the Man, muita coisa coube na denominação "free folk". Por exemplo, os Akron
Family foram postos no saco, muito embora sejam inclassificáveis. E se não acreditam,
têm remédio: (...)
Editados pela Young God Records, de Michael Gira (o homem que descobriu Devendra
Banhart), os Akron Family encontram o seu lugar na raiz primitiva do rock, ou, pelo
menos, no nódulo de que o tronco parte, com todos os géneros ainda por se ramificarem
e definir: a folk, o Gospel, a força telúrica da country e algo de primitivo, quase
punk na explosão das guitarras, tudo num só mundo, tudo num só veio.
Estão, portanto, mais próximos de bandas como Black Mountain ou Black Angels, outros
cultores de um rock rural, visceral, negro e melífluo, que das influências teutónicas
e vanguardistas da dita "free folk". Basicamente: nas mãos dos Akron/Family a The
Band pode tornar-se uma capela negra ou descobrir o inferno do "feedback". Não é
por acaso que têm uma (extraordinária) canção chamada "Dylan, pt 2".
Mas há mais que isto: nas canções dos Akron/Family podemos encontrar gemidos próximos
de alguns exercícios de Robert Wyatt, harmonias celestiais, serradura eléctrica
a lembrar os Credence Clearwater Revival, algum psicadelismo, alguma religiosidade
demente. Nunca se atinge a perfeita forma da canção, antes parecem que a estão a
tentar evitar ou que por mais que tentem nunca a irão alcançar.
Se quiserem podem dizer que há um lado improvisacional neles, falar em pós-rock,
citar Captain Beefheart, enumerar a ordem maldita do rock, recordar os 13th Floor
Elevators à conta do LSD pipetado nas seis cordas de um solo mais sanguinário. Estão
à vontade: nos três discos que a Akron/Family editou em dois anos ("Akron/Family",
de 2005, "Akron/Family & Angels of Light", um "split" com os Angels of Light,
em 2005, e "Meek Warrior" de 2006) há lugar para tudo e na estante das referências
há lugar ainda para mencionarem a folk de Canterbury ou a colectânea de música americana
de Harry Smith. Vale tudo, desde que seja rural, violento, polifónico, sofisticado,
épico, minimal, doce, lento, ruidoso e silencioso.
Vale tudo desde que algures por ali vagueie esse fantasma doentio e fascinante chamado
rock"n"roll
Tracks:
01. Love, Love, Love (Everyone) 1:46
02. Ed Is A Portal 7:31
03. Don't Be Afraid, You're Already Dead 4:36
04. I've Got Some Friends 3:09
05. Lake Song/New Ceremonial Music For Moms 7:24
06. There's So Many Colors 8:11
07. Crickets 3:59
08. Phenomena 3:46
09. Pony's O.G. 5:20
10. Of All The Things 7:41
11. Love, Love, Love (Reprise) 3:07
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