Saiu há um ano no Canadá, mas para os incautos europeus um dos álbuns mais surpreendentes
das últimas semanas chama-se "Close To Paradise" e vem assinado por um tal Patrick
Watson, cantor e pianista, ex-estudante de jazz e ex-membro de uma banda de ska
(?), que alguns conhecerão pela participação no último álbum da Cinematic Orchestra.
Grava em nome próprio depois de ter sido convidado para compor música para acompanhar
imagens subaquáticas da fotógrafa Brigitte Henry.
Confusos? Não, quando souberem que vem da Montreal dos Arcade Fire, Final Fantasy,
Islands, Wolf Parade e outros agentes capazes de nos deixarem à beira de um saudável
ataque de nervos. Gente que se entrega à causa da música com a crença que da desordem
surge a clareza.
Em 2001 compôs uma banda sonora experimental, "Waterproof9" e em 2003 o álbum "Just
Another Ordinary Day", qualquer deles despercebidos na Europa. Não é isso que está
a acontecer com "Close To Paradise" e é justificado. Obra excêntrica e, aparentemente,
plural - da escrita de canções folk à música improvisada, da electrónica discreta
às harmonias dos Beatles, do lirismo do piano à Eric Satie ao ruído rock - mas que
na verdade origina uma obra sólida a partir dos aromas mais contraditórios.
Só a voz de Watson é um mundo. Primeiro, parece Jeff Buckley, mas sem maneirismos.
Depois, Thom Yorke dos Radiohead, mas permeável. Lá mais para o fim, Antony. E até
Sufjan Stevens. Cada canção são paisagens inteiras que se desdobram à nossa frente,
elementos naturais das mais diversas proveniências (folk, rock, jazz, electrónicas)
que se vão alojando, sem esforço, no mesmo corpo sonoro, por entre vozes vagabundas
encantatórias.
A totalidade instrumental é insólita, com pormenores que se desenvolvem infinitamente.
Sugere um grupo de estouvados a tentar desenhar canções, mas no meio do desarranjo
há sempre uma linha ténue que fica do lado da razão. O suficiente para colocar um
álbum misterioso, ligeiramente psicadélico, o quanto baste místico, próximo do paraíso.
Nada elementar, caro Watson.
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