Danger Mouse obrigou-o a recuperar canções antigas que não tinham entrado em disco,
a resgatar os bocadinhos de som que havia gravado, mesmo que não tivessem estrutura.
Segundo Linkous, Danger Mouse retirava uma guitarra de um canção e punha noutra,
noutro tom, depois de a filtrar, triturar, embelezar.
Disco nublado, constantemente a sair do ruído para pairar nos cimos de uma beleza
uterina, é feito de nuvens de distorção rasgadas por flautas e vozes ameninadas.
"Don"t take my sunshine away" é a versão negra do indie-pop-regressivo, órgãos vintage
no baloiço de uma harmonia de guitarras, violoncelos sérios mirando a voz de birra
de Linkous, e o refrão, com coros planantes, a surgirem no meio da ferrugem. Está
dois palmos acima do melhor dos Grandaddy
ou dos Yo La Tengo, imersa em líquido
amniótico antes de descambar num duelo de guitarras e vozes distorcidas até
ao osso.
No fim uma voz feminina repete "sunshine".
A voz surge muitas vezes alterada - em "Gettint it wrong" torna-se um gemer infantil,
não no sentido transcendental de "Rock bottom", de Robert Wyatt, mas de pura dor,
como uma criança que tivesse rasgado o joelho. Não há uma única canção que não seja
melodicamente irrepreensível.
Há melódicas, órgãos antigos, guitarras acústicas distorcidas, cordas maradas, xilofones,
flautas infantis. A progressão de guitarra de "Shade and honey" remete-nos para
o universo da adolescência, ressaca após vomitar no milheiral à porta da discoteca,
domingo nublado, almoço de restos do dia anterior, pequena discussão, a namorada
que não atende o telefone, já se perdia a virgindade, o FC Porto perdeu em casa. O refrão tem coros a entoar "Made of honey". Aquilo é uma flauta. Aquilo é um xilofone.
Aquilo é um violoncelo. Isto é beleza. Beleza impressionante, diríamos, enquanto
nos ocorre que há mais 49 mil 999 pessoas a concordar connosco (coisa que não se
sabíamos na adolescência).
"Return to me" parece querer retratar aquilo que imaginamos ser penúria. Mas isso
é subjectivo e a humanidade não gosta disso. Objectivamente tem uma guitarra acústica
e voz. Objectivamente "Some sweet day" será a canção mais propensa a encantar os
amantes de "It"s a wonderfull lief", toda órgãos, baixos pulsantes debaixo de uma
produção densa, com a voz a procurar um lugar de alegria no refrão. Objectivamente,
Beck daria seis dedos do pé esquerdo para escrever uma canção assim.
Nós andamos por cá, fazemos asneiras diariamente, alguém apara a relva no jardim
para que a geometria esconda o rebuliço nos intestinos. "Dreamt for light years..."
é só rebuliço nos intestinos, geometricamente disposto para encantar. Linkous nem
está salvo nem se tornará "um ser humano melhor".
Os canteiros estão aparados, dentro de casa ouvimos baixinho discos dos Sparklehorse.
Mark Linkous canta "It"s not so hard". Os canteiros estão aparados.
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