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2007-12-11

Carla Bozulich - Evangelista (7/10)

Constellation /

Com 41 anos, Carla Bozulich é dona de um percurso musical pouco comum e já bastante longo. Começou no punk rock, como é normal nos currículos deste tipo de personagens, andou pela música electrónica/industrial com os Ethyl Meatplow e conheceu algum sucesso nos Geraldine Fibbers, praticantes de rock e country alternativos. Já em nome próprio, explorou ainda mais o apego ao country com o recomendável "The Red Headed Stranger" (2003), que revê o clássico com o mesmo nome de Willie Nelson (a lenda do country cantou mesmo em dueto com Bozulich alguns temas, sem quaisquer contrapartidas financeiras). Pelo meio há discos experimentais com gente como Nels Cline (agora nos Wilco) ou Ches Smith (Secret Chiefs 3), uma colaboração com a amiga Lydia Lunch e outros feitos que complicam ainda mais o enquadramento estético de Bozulich.
Em "Evangelista", o primeiro álbum com selo Constellation de um artista de fora de Montreal, Canadá, a norte-americana encontra um ponto intermédio entre a experimentação e a canção. Ao mesmo tempo reinventa-se, contando com a ajuda de membros dos Godspeed You! Black Emperor, A Silver Mt Zion (ASMZ) e Black Ox Orchestra para conjurar estes nove ritos fúnebres.
O tema inaugural, "Evangelista I", é talvez aquele a que a escola Constellation empresta maior influência: Bozulich expurga males sobre um órgão omnipresente (elemento que confere a quase todo o álbum um lado "drone" hipnótico) e cordas dolentes que só explodem mais de sete minutos depois. É uma atmosfera rarefeita de luz que não ficaria mal aos ASMZ se estes tivessem Diamanda Galás nas suas fileiras. Semelhante expressividade vocal só será encontrada na despida "Baby, that"s the creeps", que revela a qualidade de Bozulich enquanto performer - a voz em choro revoltoso (a recordar Patti Smith), como que a chamar a si o sofrimento do mundo.
"Evangelista II", que fecha o álbum, é o reverso do primeiro tema: a instrumentação é reduzida ao mínimo (Efrim, dos ASMZ, na guitarra e Bozulich na voz e nos ruídos que vão irrompendo pela canção) e a vocalista a ciciar num lamento sepulcral. "Pissing" é repescado aos Low e mantém-se fiel à parcimónia do original, num crescendo compassado de tensão rumo a um buraco negro (há violinos e vozes em rodopio a acompanhar a bateria imutável).
"Prince of the world" e "Steal away" são as canções menos negras do álbum e denotam uma qualidade religiosa no som e nas letras. A primeira aponta um coro de vozes para o céu sob a melodia ditada por um dedilhado triste. Já "Steal away" (versão de um espiritual afro-americano) abre com contrabaixo a sugerir uma raga, mas a impressão inicial é interrompida por um órgão clerical e Bozulich em louvores a Deus ("My Lord, He calls me / He calls me by the thunder").
Os momentos mais dissonantes acabam por ser os menos interessantes do álbum. "How to survive being hit by lightning" assemelha-se a uma transmissão radiofónica roufenha de uma cantora dos anos 50 e "Nels" box" é uma impressionista manta de retalhos dispensável. Não envergonham, mas retiram impacto ao conjunto.
À semelhança de boa parte do restante catálogo da Constellation, "Evangelista" convida ao recolhimento e aconselha-se o seu consumo em doses regradas. É uma aposta ganha numa editora que a custo vai explorando outras estéticas para além do pós-rock mas cujo núcleo duro de artistas serviu, curiosamente, para Bozulich se redefinir musicalmente.

Pedro Rios in Público | 23-06-2006|

Tracks:

1. Evangelista I
2. Steal Away
3. How To Survive Being Hit By LIghtning
4. Inside Sleeps
5. Baby, That’s The Creeps
6. Pissing
7. Prince Of The World
8. Nels’ Box
9. Evangelista II

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