Com 41 anos, Carla Bozulich
é dona de um percurso musical pouco comum e já bastante longo. Começou no punk rock,
como é normal nos currículos deste tipo de personagens, andou pela música electrónica/industrial
com os Ethyl Meatplow e conheceu algum sucesso nos Geraldine Fibbers, praticantes
de rock e country alternativos. Já em nome próprio, explorou ainda mais o apego
ao country com o recomendável "The Red Headed Stranger" (2003), que revê o clássico
com o mesmo nome de Willie Nelson (a lenda do country cantou mesmo em dueto com
Bozulich alguns temas, sem
quaisquer contrapartidas financeiras). Pelo meio há discos experimentais com gente
como Nels Cline (agora nos Wilco) ou Ches Smith (Secret Chiefs 3), uma colaboração
com a amiga Lydia Lunch e outros feitos que complicam ainda mais o enquadramento
estético de Bozulich.
Em "Evangelista", o primeiro álbum com selo Constellation de um artista de fora
de Montreal, Canadá, a norte-americana encontra um ponto intermédio entre a experimentação
e a canção. Ao mesmo tempo reinventa-se, contando com a ajuda de membros dos Godspeed
You! Black Emperor, A Silver Mt Zion (ASMZ) e Black Ox Orchestra para conjurar estes
nove ritos fúnebres.
O tema inaugural, "Evangelista I", é talvez aquele a que a escola Constellation
empresta maior influência: Bozulich
expurga males sobre um órgão omnipresente (elemento que confere a quase todo o álbum
um lado "drone" hipnótico) e cordas dolentes que só explodem mais de sete minutos
depois. É uma atmosfera rarefeita de luz que não ficaria mal aos ASMZ se estes tivessem
Diamanda Galás nas suas fileiras. Semelhante expressividade vocal só será encontrada
na despida "Baby, that"s the creeps", que revela a qualidade de
Bozulich enquanto performer - a voz em choro revoltoso (a recordar
Patti Smith), como que a chamar a si o sofrimento do mundo.
"Evangelista II", que fecha o álbum, é o reverso do primeiro tema: a instrumentação
é reduzida ao mínimo (Efrim, dos ASMZ, na guitarra e
Bozulich na voz e nos ruídos que vão irrompendo pela canção) e
a vocalista a ciciar num lamento sepulcral. "Pissing" é repescado aos Low e mantém-se
fiel à parcimónia do original, num crescendo compassado de tensão rumo a um buraco
negro (há violinos e vozes em rodopio a acompanhar a bateria imutável).
"Prince of the world" e "Steal away" são as canções menos negras do álbum e denotam
uma qualidade religiosa no som e nas letras. A primeira aponta um coro de vozes
para o céu sob a melodia ditada por um dedilhado triste. Já "Steal away" (versão
de um espiritual afro-americano) abre com contrabaixo a sugerir uma raga, mas a
impressão inicial é interrompida por um órgão clerical e
Bozulich em louvores a Deus ("My Lord, He calls me / He calls
me by the thunder").
Os momentos mais dissonantes acabam por ser os menos interessantes do álbum. "How
to survive being hit by lightning" assemelha-se a uma transmissão radiofónica roufenha
de uma cantora dos anos 50 e "Nels" box" é uma impressionista manta de retalhos
dispensável. Não envergonham, mas retiram impacto ao conjunto.
À semelhança de boa parte do restante catálogo da Constellation, "Evangelista" convida
ao recolhimento e aconselha-se o seu consumo em doses regradas. É uma aposta ganha
numa editora que a custo vai explorando outras estéticas para além do pós-rock mas
cujo núcleo duro de artistas serviu, curiosamente, para
Bozulich se redefinir musicalmente.
Tracks:
1. Evangelista I
2. Steal Away
3. How To Survive Being Hit By LIghtning
4. Inside Sleeps
5. Baby, That’s The Creeps
6. Pissing
7. Prince Of The World
8. Nels’ Box
9. Evangelista II
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