.....bit Sounds "Escrítica" POP

Recolha e Arquivo by Zito ..............

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2007-12-05

Animal Collective - Feels (10/10)

Fat Cat / Flur

Será sacrilégio ou blasfémia falar em "génio" para nos referirmos ao sétimo disco de quatro miúdos nova-iorquinos? Talvez seja o que apetece fazer, com o coração nas mãos, tal o arrojo criativo evidenciado pelos Animal Collective no novo "Feels", quando o magnífico "Sung Tongs" (2004) está ainda fresco na memória de muitos. Se esse disco foi um dos mais relevantes dos últimos anos, é legítimo acreditar que "Feels" venha a alcançar um estatuto maior - ou seria justo se assim fosse.
"Feels" é um disco súmula, em múltiplas aspectos. Súmula, porque junta o apelo das melodias e das canções pop com a complexidade da "weirdness" de uma geração de artistas desencantados com as fórmulas (Black Dice, Gang Gang Dance, Excepter, etc.). Súmula, porque concentra algumas das coordenadas dos Animal Collective do passado e projecta-as num som urgente, totalmente idiossincrático, sem paralelo na música de hoje - há referências, mas isto é música do presente e do futuro.
É precisamente o lado lúdico e melódico de "Feels" que assegura ao quarteto um lugar cada vez mais singular no panorama global: já não podem ser conotados com o noise como o foram com "Heres Comes The Indian" (2003), nem com a "New Weird America" ou "free folk" como muitos erradamente fizeram aquando da proposta mais acústica de "Sung Tongs". O novo álbum mantém algumas das características de "Sung Tongs" (os coros à Beach Boys era "Smile", percussões diabólicas, a beleza infantil que atravessa as canções), mas é menos desigual - nenhum dos nove temas é dispensável e ouve-se de um trago. É também menos acústico, mais eléctrico, rápido e acessível.
Abre logo com a magistral "Did you see the words" (ecos de risos de crianças, uma guitarra em círculos, percussão a acelerar para picos épicos). A canção revela desde logo a densidade presente em todo o disco: cada melodia esconde um mundo de outros sons que acrescentam cores à cosmogonia delirante dos Collective. "Grass" partilha a mesma lógica, mas tem um refrão chanfrado ("Thank you for the pain!/Got shakey shakey shoulders/Down to the river of the noses in the night"), que termina aos berros - é um perfeito "single" pop, três minutos de deslumbramento hiperconcentrados. Em "Turn into something", ouvem-se cordas de brinquedos, vozes a criar ritmos em cima de ritmos, uma guitarra a rugir e as habituais evocações da infância ("I"m not bummed some works not fun/Then we crawl in the carpet like bugs") - eis os Animal Collective na rota da psicadelia e nós, de olhos fechados, a assistir.
"Banshee beat" tem o refrão mais enternecedoramente "freak" dos últimos tempos (é belíssima a forma como Avey Tare prolonga as vogais de "pool") e é uma notável canção, sustida numa guitarra solitária e percussão "africanizante", que joga entre a contenção e as múltiplas subtilezas que se acrescentam ao mantra de mais de oito minutos aparentemente homogéneo.
Noutros momentos, "Feels" é tranquilo. "Flesh canoes" tem algo de My Bloody Valentine na forma como a guitarra se liberta da forma e se prolonga no tempo. "Bees" é comparável a "The softest voice" de "Sung Tongs", mas está longe de aborrecer como acontecia no tema desse disco. Há piano esparso, vozes suspensas via "delay", acordes de guitarra que se repetem e uma letra críptica e lacónica ("So violent/the bees/they can slide"). "Loch raven" é um belíssimo sussurro sobre electrónica vagamente reminiscente dos colegas de editora Múm (curiosamente, Kristín Anna Valtysdóttir, dos islandeses, toca piano em "Feels") e mais um exemplo de como os Animal Collective constroem temas incrivelmente cheios com base numa ideia simples.
"Feels" tem um dom cada vez mais raro numa era de consumo veloz de música: agarra-nos, põe-nos à descoberta das minudências dos seus temas aparentemente simples, alia os prazeres auditivo e intelectual de ouvir música. E faz-nos sonhar como quando éramos crianças.

Pedro Rios in Público | 14-10-2005|

Tracks:

1. Did You See The Words 5:15
2. Grass 2:59
3. Flesh Canoe 3:44
4. The Purple Bottle 6:48
5. Bees 5:38
6. Banshee Beat 8:22
7. Daffy Duck 7:34
8. Loch Raven 4:59
9. Turn Into Something 6:29

2007-11-25

Burial - Untrue

Burial - Untrue (5/5)

Hyperdub / Flur

Em "Untrue", o segundo álbum de Burial, o que não é dito é mais importante do que aquilo que é dito. O concreto é menos relevante que as suas sombras. O vazio não é vácuo: é um espaço em aberto, pronto para ser ocupado por memórias, imagens, projecções do ouvinte. Olha-se à volta e não se vislumbra música mais evocativa.
Na segunda metade do ano passado, com o álbum homónimo de estreia, já havia sido assim. De repente, tomávamos contacto com a música de um esteta londrino que preferia manter o anonimato (numa das poucas entrevistas, há semanas, ao diário "The Guardian", revelava que nem os amigos sabem que cria música), sendo inserido na corrente dubstep que, entretanto, chegava ao grande público depois de anos na obscuridade.
Para além de Burial, a edição dos álbuns de Kode9 ou Skream trataram de conferir credibilidade ao fenómeno, mas desde logo ficou evidente que Burial transcendia qualquer tentativa de classificação. A sua música possui características atribuíveis ao dubstep - as ambiências opacas sacudidas por subgraves ou as reverberações do dub - mas organizadas de forma singular.
Um ano depois regressa com outra obra admirável. Mais um disco de silhuetas, evocando cidades adormecidas povoadas por seres solitários, tacteando na escuridão. Cadências rítmicas disjuntas que se desenvolvem vagarosamente e vozes que se diluem por entre camadas de som vindas de paragens longínquas. Mas agora há mais luz. Mais profundidade de campo. Maior intensidade dramática. E muito mais vozes.
São canções, mas canções entoadas por quem necessita de auxílio e já não tem voz. São canções, mas rodeadas de abstracção. São indícios, fantasmas que se agitam ao som de música remota, distorcida no contexto de um sonho.
Pensa-se na electrónica granulada das produções da obscura mas mítica editora alemã Basic Channel. No som metalizado do drum & bass produzido por Photek. Em Goldie do álbum "Timeless". Nas produções dub do excêntrico Lee Perry. Nos ambientes enevoados de algumas canções dos Joy Division. Ou em Brian Eno.
Pensa-se nisso e não se chega a lugar algum. Porque "Untrue" é o tipo de obra aberta, vulnerável, com capacidade de partilha, convite para cada um mapear a sua geografia íntima, criando a sua própria banda sonora.

Vítor Belanciano in Público | 16-11-2007|

Tracks:

01 Untitled (0:45)
02 Archangel (3:59)
03 Near Dark (3:53)
04 Ghost Hardware (4:54)
05 Endorphin (2:57)
06 Etched Headplate (6:00)
07 In Mcdonalds (2:09)
08 Untrue (6:16)
09 Shell Of Light (4:41)
10 Dog Shelter (2:58)
11 Homeless (5:26)
12 UK (1:42)
13 Raver (4:58)